Sunday, August 23, 2009

Camisas IV

Aparentemente uma rotina simples. O azar de estar envolvido na história do parque mais o clube, os amigos e um cabaré classe “A+”, a Carmem. Chamado de Doutor Humberto pelo porteiro, uísque velho paca, salamaleques e coisa e tal. Tudo os dois olhos da cara. Joe tinha charme e dinheiro nunca faltou. Nada nababesco como o miserável que vigiava, mas grana não faltava.

Sacou a favorita e foi nela. Tereza. Nada de informação importante. Mas boa, sensual, nada esquelética. A mulher que os homens não querem desfilar, mas devorar devotadamente. Um objeto tão lindo que gosta de ser objeto, como uma paisagem mais bonita porque sabe que é olhada. Mais desejável porque sabe disso. Uma artista. Fácil se envolver, mas ela não quer envolvimento.

Joe não é novo na noite. Conhece. Possível que uma mulher daquelas, descontado o da casa, fature mais do que ele tomando chuva a olhar camisas. Bons artistas não fingem, tem aquela coisa de banco de emoções. Coisa mais talento que prática. Tereza gosta e goza. Não vai com quem não quer. Vai ter menos um freguês, possivelmente vai ser investigada. O alemão olho bem azul com marca de nascença embaixo do queixo, grande como uma moeda e que Joe não é, vai ser procurado. O alemão foi quem perguntou pelo doutor.

Era só. Foi duas vezes a Carmem. Na primeira bebeu pouco e só vinho. Foi como francês e deliciosamente fez o que se esperava e o ganho foi observar que o cretino tinha uma preferida. Da outra vez, com a preferida. Fim. Nada conseguiu, mas deixou um rastro falso eficiente. Se fossem até ali dali não passariam. Se o cara tinha alguma tara esquisita capaz de matá-lo acidentalmente, não era com Tereza ou ela não sabia ou não diria. Um beco sem saída. Nenhuma informação, só uma trepada e tanto. Ainda azar, mas já estava melhorando.

De resto o clube era golfe. Joe não sabia nada de golfe e disfarce de cadi ou taco seria demais. Sorriu ao pensar numa bomba no carrinho do equipamento. Espanto na mídia, “Terror nos Campos de Golfe - Elite em Polvorosa”. Demasiado complicado. Fazer uma bomba deixa rastros. Teria de ser detonação à distância. Muitas variáveis e a indispensável proximidade. Só prá distrair a cabeça. Não dá.

Tiro. Considerando o golfe, fácil. A poética do jogador solitário com os miolos espalhados pela folhagem é tentadora. Um tiro de pelo menos trezentos metros. Era capaz. Melhor, fora capaz. Já não tinha acesso ao equipamento. Munição confiável, lunetas e, principal, o próprio fuzil. Entregara tudo ao Galhardo como um favor/penhor que lhe valia a droga que consumia. Quase nada e só haxixe. Não, tiro não seria.

Havia momento em que o cara estava vulnerável. Depois do parque invariavelmente parava num café, ficava um tempo com um jornal na cara. Seria depois. Durante as baforadas do invejável charuto que acompanhava o café com creme e sem açúcar. O fumo poderia ser assunto para aproximação. O método seria veneno. A forma mais sórdida, o veneno de ação lenta.

Vai morrer aproximadamente cinco horas depois do cafezinho. Pena as cólicas horríveis. Literalmente esvaído em fezes e sangue. Inconveniência que Joe não sabia com evitar. Nem pretendia, entre as frases que gostava de citar estava “carcaça não é para olhar, é para se afastar”.

Anotara o charuto pedindo informação, no próprio café, sobre rua que não lhe interessava em absoluto, mas por perto. Não chamar atenção ou chamar muita disfarça igual. Foi vestido de palhaço. Uma monstruosidade, um susto que anda, chamativo como um Pateta na Disneylândia, tão identificável quanto. Dois metros e meio de altura. Todo suado, um enchimento quentíssimo. Péssima idéia. Andava como trezentos quilos prestes a desabar das pernas de pau. E desabou. Quando voltava a ser Joe. Longe de tudo, de ajuda inclusive. Torceu o pé. Ódio sempre pode aumentar. Saiu do hospital na mesma tarde, enfaixado e de muletas. Já muito além da raiva, estava determinado a eliminar o problema fosse quem fosse o sacana.

Saturday, August 22, 2009

Camisas III

Na verdade daquela tolice toda tinha interessado o papo sobre confiança. Garantira tolamente que mesmo sendo o que sua filha chamava de irresponsável inócuo poderia assumir um compromisso e cumpri-lo baseado exclusivamente no fato de ter prometido fazer.

Gostava de cozinhar, inventava pratos. Tinha nascido rico e nada fizera para mudar isso. Estudara o suficiente para dizer chega. Não preciso. Não quero. No tempo adequado perdera ambos os pais para o câncer. Viajara até aceitar que não gostava de lugares novos. Descobriu bem cedo. Dois casamentos obrigaram a longas viagens para ver coisas que no cinema eram mais bonitas, menos bichos nojentos, fedores e, principalmente, menos congelantes. Não morava mais onde nascera por conta da migração filial. Sempre residia na mesma cidade que a filha. Questões de praticidade. Não se viam muito. Era um gostar amigo, nada sufocante.

Num dos raros almoços cerimoniosos que promovia em atenção à filha e aos chatíssimos filhos e marido aconteceu o que chamava de tolice fundamental. Tinha caído numa esparrela. A filha trabalhava. Acreditava nessas bobagens de ser útil, fazer a vida por si mesma, quaraquaquá e tal. Nada dizia das oportunidades que tivera. Certo, ganhava bem. Poderia ter se feito por si mesma, mas não foi bem assim. Paizão, sabia não tocar no assunto. Era importante para ela. Para ele, só a vagabundagem era coisa natural. O avô dela e o bisavô, talvez o anterior também, tinham construído o que ele só gastava e achava muito bom que fosse assim, sem problemas de consciência ou mais besteiras.

O desafio exigia que fosse fiel a um compromisso sem sentido que, na opinião dele, não provava nada. Apenas que era teimoso como uma mula. A facilidade da coisa era enganosa. Até a volta da filha e sua chatíssima tropa de longa volta ao mundo da qual escapara por pouco, sepultando as chances de não cumprir o que no começo parecia piada, prometera ir pelo menos quatro dias por semana ao parque nunca repetindo consecutivamente a mesma camisa.

Enfim, estava no fim. Mais umas duas semanas e estaria tudo terminado. As camisas não precisavam ser todas diferentes, mas ele fez assim. Teria enorme prazer em dar as trezentas e tantas camisa diferentes para o genro imbecil. Trezentos dc qualquer coisa são grande volume. Trezentas coisas inúteis são um monumento. Guardar trezentas coisas sem uso visível é castigo que haveria de deixar por herança ou não haveria herança. Um troco simples pelo trabalho de encomendar, já pela terceira vez, cento e cinquenta camisas diferentes e ir passear no parque com elas. Uma de cada vez, nunca repetindo.

Que poderia haver de mais inócuo e sem conseqüências? Já desejara acabar com aquilo inúmeras vezes, mas nem sempre choveu e agora já era parte da rotina. O porteiro do condomínio brincava: - Camisa nova, Doutor? - Coisa da filha, sempre respondia ao passar o portão a pé. O parque era perto.
Ia até lá entre tal e tal hora ficava um pouco, olhava o lago e os outros estranhos fregueses diários do parque. Observava os cães e as raças dos donos. Pela graça da coisa Havia também um fotógrafo com telescópio, talvez estudioso de pássaros ou repórter investigativo (sempre lá, chuva, frio ou canícula). Cumpria o ritual da camisa e rumava para o clube, os amigos e o apelido ganho por merecimento: Camisa Nova. Depois, a vez de Tereza Seios Enormes.

Wednesday, August 19, 2009

Camisas II

Camisas II.

"A emoção é nenhuma, mas lá está ele. Hoje está verde como pedaços de grama que o calor e a estiagem ainda não secaram. Quantas camisas verdes esse animal terá? Animal, sim, animal! Não o conheço, não sei nome, não quero saber. Não gosto dele. Ninguém me faz sofrer assim desde o ginásio. Não é culpa dele? Claro que é, alguma fez para alguém ou eu não estaria condenado.

Bah! Não vou me enganar. Sem desculpas. Penso em matá-lo para não ter mais de olhar para ele. Para voltar a viver sem cuidar camisas. Vai ser muito trabalho, as valerá. Quem é, onde mora, o que faz, aonde vai, talvez o porquê da vigilância e toda essa coisa ridícula. Achei um absurdo de início. Essa grana toda para anotar as camisas de um sujeito? Moleza. Tão mole que derreto. Eu aqui: muita garrafa de isotônico, equipamento e a camisa hoje é verde suado sem detalhes. Qual a de ontem? Verde não era. A história continua. Poderia matar esse puto só porque pode ir embora sem levar nada. Cinco minutos de sol escaldante e se manda. Estou aqui faz litros de suor, tédio e raiva. Olho a tralha. Carregar tudo. Este já está morto. Dedicação exclusiva. Onde mora?"

Joe Notebook é metódico. Não é doente, mas o tamanho do queijo e da mortadela no sanduíche de pão redondo é exato. Uma moeda grande: um lado queijo, outro mortadela.

Matar é fácil. Muitos modos. Quantidade de oportunidades. O problema não é escapar impune da polícia, da lei. Crimes sem motivo, ainda que assassinatos, não têm solução. A menos que o autor seja estúpido ou seja um desprezado pelo sorte, um eleito pelo azar. Usualmente não acontece ao Joe. O queijo cobre exatamente a mortadela. Mas não sabe quem o contratou. Podem ser perigosos. Tudo tem de ser casual. Nada de enredo cinematográfico. Pensa rápido em atropelamento. Não serve. Teria de ser o motorista. Muita interferência do acaso. Fuga, carro, insuspeitas testemunhas, câmeras de vigilância e não há garantias que o sujeito morre. Bobagem. Qual a rotina do cara das mil camisas? Mulher? Filhos? Outro trabalho mais emocionante que andar todos os dias até o parque com uma camisa nova??

O insight é horroroso, um choque do cotovelo até o pulso. Bateu o braço na cadeira quando pensou que o cretino poderia não ser outra coisa que mais um elo numa cadeia da qual poderia nunca perceber o tamanho ou o objetivo. E se o cara fosse quase tão patético quanto ele? E se esativesse contratado para ir, dia após dia, semana após semana, mês após mês e entrar ano sempre indo ao parque com uma camisa diferente? Azar dele, do penúltimo, a história vai acabar.

Seguir bem feito, despercebido, é tarefa para dias. Primeiro até aquela esquina, dali, outro dia, mais um pedaço e assim até conhecer o fim. Um condomínio de alto luxo. Altas cercas, alta segurança. Tudo o que seria ruim que fosse. Um edifício seria fácil, uma casa isolada mais ainda. Ali tudo o que pode fazer é ir embora sem perguntar nada. Teria de ser no trajeto ou no parque. Talvez surgisse algo da rotina do cara. Contar os tempos. Estar no parque durante a hora e meia aprazada para a verificação de camisa era absolutamente necessário. O bosta podia não ir, Joe nunca.

A tentação de dar um fim rápido nem apareceu. Agora havia um objetivo, um tipo de serviço diferente. Eliminar o cara. Absorvente. A emoção da caça.

Monday, August 17, 2009

Vezes tem que dá uma vontade sem propósito de escrever. De fazer isso apenas porque sei fazer. Não é como cortar a grama. Nada encheu que tenha de extravasar, muito menos transbordar. O que escrevo fica, mas nem é por isso. Não sei. Essa é a verdade. Não estou inspirado como quando tenho de entregar o sentido a qualquer outra coisa que pode até ser um eu interior (que a mim não se apresentou ainda), mas esse aqui, meu conhecido, não é. O texto é assunto maior e o sentido me foge. Vem por mim, não é para mim. Não há necessidade que entenda.

Mas essa de fazer porque é divertido estar registrando pensamentos, a melhor aproximação é dançar nu pela sala e sozinho. Tudo aqui é bem real (acabei de escrever, de papelizar esse pensamento, está concreto, quântico pelo menos). Quando ainda na cabeça as idéias não tem existência. É preciso copiar de onde ESTÃO e fazê-las na realidade, "trazê-las à existência" (muita gente boa não saca que é uma metáfora: trazer não está por transportar).

Deve ser por isso a imensa bobagem dos tais arquétipos e toda a confusão filosófica decorrente. É simples assim. mas pode-se compreender que sábios embrulhados em panos ou vestindo barris e que ERAM as estrelas da época (academias, escolas, etc..) quisessem cada um ter uma idéia luminosa e o séquito consequente.Vejo-os inventando coisas, um mais Paulo Coelho que o outro.

Parafraseando Fernando Pessoa: "...o mistério último das coisas / é que elas não tem mistério nenhum..."

Saturday, July 11, 2009

Camisas.

Era tarde e Joe Note Book andava apresado. Não era um encontro, era um avistamento. O cara poderia estar lá. Dia após dia, tarde após tarde. Em dias ruins, chuva, vento, frio, nunca ia, nos outros quase sempre. Nunca com a mesma camisa. Mês após mês. Quatorze meses e três dias.

Começou como serviço avulso. Seguir pessoas. Fazer relatório, receber. Sumir um tempo. Um dia, dois, três, uma semana. Nunca mais que isso. Ai, esse cara. Esse serviço. Dez dias após o cara aparecer dois dias seguidos com a mesma camisa deverá enviar uma mensagem para determinado endereço eletrônico. Simples e fácil. Há um ano e dois meses.

Antes vivia como queria e agora uma rotina miserável porque pulha tem todas as camisas do mundo disponíveis, dia após dia. Nada se sabe sobre quando não vai. Rotina miserável, cotidianamente miserável, equipamento pesado, especializado e dedicado. Era verão, veio outono, depois inverno, primavera e os estilos mudando. As capas escondendo a camisa. O telescópio. O note book sempre anotando a descrição da camisa da vez. Foto detalhada. Absolutamente todos os dias. Absolutamente lá durante quatro horas. Era verão. Um parque pareceu bom. Longe das vistas, das marquises, abrigos em caso de chuva. Café, só da térmica. A miséria que só esperava no inferno.

O pagamento semanal e pontual como já não gostaria que fosse. Fosse, aliás, possível qualquer contato, desfaria o trato. Era um emprego maçante, torturante. Considerava deixar de ir. Mas quem seriam seus contratantes? Que importância teria sua parte no esquema, fosse qual fosse? Qual o preço da falha? Se o cara morresse? Se o matasse?

Se o matasse? Essa idéia foi tomando corpo.

Monday, June 01, 2009

Sunday, May 10, 2009

Capital x Trabalho

Seguinte: se a maior parte do "capital" existente é fictício, por conta do fator multiplicador bancário (moeda estrutural) e dos mercados futuros e mais picaretagens mágicas puramente econômicas onde o capital é absurdamente mercadoria (comprar parte de um lucro que existirá é bom exemplo), em quê a economia real se baseia?

Vou ariscar um palpite. No trabalho. O que move a economia real é o trabalho e não o capital. O capital está para a economia como o poder dos reis ou do clero, serve para aurir privilégios, não produz realmente nada.

Monday, May 04, 2009

SocialDecadência(apontamentos)




Sabe-se, porque nem tão burros somos, que todo político é ladrão. Não vive só de seus proventos, enriquece na carreira política ou já é rico (em nossa democracia o poder é hereditário, um político de sucesso elege seu filho, seus parentes) e nela se locupleta sem o menor pudor, decência ou dignidade.

Isso sabemos. Participar dessa trama custa a vida, custa viver uma vida de merda entre patifes que se sacanaeiam tanto quanto a nós nos roubam. Os que estão no alto repartem o botim, qualquer o partido. Por mais que um diga mal do outro, ali, no bar da esquina (no caso, hotel de luxo), estão aos risos e abraços. Mas nenhum dá as costas ao outro. Ali é terra de ninguém, todos puxam o tapete de todos. Amizade é termo sem sentido.

Isso sabemos. É uma forma escrota de ganhar a vida, mentindo sempre e, claro, ensinando isso aos filhos, até pelo exemplo. Quer prá ti? É o que custa o poder que poderás talvez nunca alcançar e ficar a obedecer canalhas para sempre. Estive ente eles, são todos doentes.

Salta aos olhos: qualquer pessoa minimamente decente não sobreviverá num meio assim. Os canalhas estão no poder e de lá só serão apeados pela própria estupidez. Porque a incompetência anda junto com a patifaria. Porque seres humanos são capazes de colaborar entre si, mas macacos não são.

É preciso reduzir ao mínimo a participação na sociedade que eles dominam, aproveitar-se dela, mas viver ao lado. Nenhuma causa vale sequer uma vida, quanto mais milhares, que dirá milhões.

O carro do ano não vale o tempo gasto em ganhar o suficiente para a prestação. Assim o tênis de marca ou roupa de grife.

A sociedade de consumo é crime contra o planeta. Precisa parar. É preciso repensar o relacionamento pessoal de cada um com a sociedade, com o poder.


arnaldo sisson

Saturday, October 04, 2008

Cicatrizes Deformantes(I)



O processo de viver resultou em uma casca bem confortável. O bicho está tranqüilo, seguro. Aprendeu que pensar, via de regra não serve para nada e, quando necessário faz isso suficientemente bem. Com alguns sobressaltos: a chaleira está no fogo e ele, dando passagem a mim, está escrevendo. É perigoso. Burro.

Tenho que conceder. Se a casa queimar, fico sem substrato. Vou lá.

Nada queimou, já restabeleci os níveis exagerados de cafeína que considero adequados a sobrevivência e permitem que as solicitações orgânicas, mesmo que vícios, não perturbem muito.

O dia chuvoso sem parar é próprio para suspender todos os movimentos. Tenho a disposição todos os motivos pelos quais poderia me atrever à intempérie, ao barro. Em compensação, não sair me conecta ao mundo.

Isso lembra convivência. Bem de longe, mas lembra. Pois então, embarquei numas de considerar as listas, disponíveis aos magotes tanto quanto bogs, convivências sociais tempestuosas mesmo quando amigáveis. Claro que tento escrever direito e, do meu jeito, me exibir bastante. Não estou cobrando nada para isso.

Sucede que é preciso uma qualidade especial, que não tenho, para a compreensão dos motivos pelos quais um elogio que receba levante uma onda indignada de ressentimento.

Aqui a cicatriz deformante: incomoda fazer bem algo que a outrem ofende por ser bom. Porque provavelmente o bosta gostaria de ter feito. Algo como disputar uma prova de natação e ficar com o que para o concorrente seria uma medalha e para mim é só uma latinha. É o mais próximo da culpa que aceito chegar e não gosto.

Aqui, melhor.

Back to Li Po

Uma vez Li Po caiu do barco. Mas Li Po, a exemplo do Grande Líder, nadava.

Enquanto Li Po braceava, saudoso da margem, pensou em nunca mais se atirar a paixões.

Se Alphonsus tivesse realmente se interessado. Isso não lhe passaria. Ismalia não disse nada.

Alphonsus nem conheceu Li Po.

Tuesday, September 23, 2008

Presságios

Estava ali, havia já um par de horas. Por si, não queria ver nada, porque era melhor nada ver. Preferível não tivesse olhos, nem ouvidos. Que o tempo parasse, seria ainda mais desejável. Sabia que uma desgraça estava por vir. Era por isso que deixara a casa e fora buscar refúgio nas pedras da margem oeste da ilha. Ali, pensou, estava a salvo de presenciar de novo o que já vira antes. A sombra da tipuana o protegia do sol forte e podia sentir no rosto o vento que vinha do sul. Precisava de paz e precisava que aquele dia terminasse logo. De preferência, sem que o tempo passasse.

Das outras duas vezes, ficara em casa e lembrava muito bem o que se passara. Fora Maria Rita quem lhe ensinara sobre os agouros. Dois já tinham se provado verdadeiros. Queria muito que ela estivesse errada quanto ao terceiro, mas não era capaz de apostar nisso.

Olhando para o sul, notou um pequeno ponto se movendo sobre a água, trazido pela corrente. Girou o rosto e mirou por sobre as copas das árvores da ilha em frente. Um avião mostrava as garras indo na direção do aeroporto. Desviou o olhar com medo que o agouro decolasse em direção à aeronave. “Que pousem em paz!”, pensou.

A primeira vez que aconteceu foi também a primeira vez que ouviu Maria Rita falar daquilo. Estavam os dois tomando chimarrão no avarandado da casa. Levou um susto quando um besouro passou zunindo próximo ao seu ouvido. E tomou outro, quando ela levantou de um salto e desatou a falar, olhando para o inseto que seguia vôo em direção aos arbustos do jardim: "Credo! Volta pra quem te mandou. Diz que não me achou. Eu te arrenego. Cruz credo!" Ficou agitando os braços para ele: "Fala isso! Repete o que eu te falei". Ele ficou calado. Calado e atônito, olhando pra ela com cara de assombro. Mais ainda depois que ela sentenciou: "Zumbido de besouro no ouvido é sinal de mau agouro". “Bobagem!”, pensou, e fez um gesto desinteressado como quem quer mudar o assunto.

Isso se deu antes do almoço. No meio da tarde, quando foi sacudir o avô da sesta, não conseguiu acordá-lo, nunca mais. Foi assim que aprendeu a sofrer a culpa de não rezar o ditado da Maria Rita.

Após a missa do sétimo-dia, ela veio puxar assunto. Referiu sutilmente que havia prevenido sobre o agouro. Como se ele precisasse ser lembrado, como se a culpa não batesse ponto todos os dias. Seguiram falando sobre o avô. Sentiu-se um pouco aliviado ao ouvir dela: "Culpa não serve pra nada. Larga isso". Depois, ela disse pra ele ter cuidado com outros dois sinais. O primeiro, ela falou, é quando um cachorro cava um quintal. É sinal certo de que uma sepultura terá de ser aberta. O diálogo ainda estava vivo em sua memória.

Longe, um cachorro latiu. Os ladridos invadiram-lhe a mente, seqüestrando lembranças. Estava saindo de casa numa manhã de domingo. Cruzando a porta principal, avistou Paco – cruza de ovelheiro com vira-lata – cavando de forma ávida a terra fofa, perto do portão principal. Ficou entorpecido. A frase transpassou sua mente, paralisando-o por instantes. "Quando um cachorro cava um quintal, é certo que uma sepultura será aberta." Gritou "Pára, Paco!", e arremessou um vaso de violetas na direção do cão. Precisava descobrir como anular o agouro. Maria Rita haveria de saber a reza. Começou uma corrida sobressaltada em direção à casa dela. Uma corrida curta de quinhentos metros, na direção norte.

Mal avistou o muro, começou a chamar por ela. Que lhe desse a reza; que, por amor de Deus, lhe desse a reza. Nem usou o portão. Pulou o muro baixo e, encontrando a porta destrancada, invadiu a residência, agora clamando por Maria Rita. Só parou quando a encontrou. Então, chorou por ela. Quando a polícia chegou para registrar o latrocínio, ele bem que tentou levar o delegado para ver a cova no jardim da sua casa. O delegado disse que sim, mas nunca foi.

O vento soprou mais forte, balançando os galhos da tipuana. O ponto que descia o rio crescera e agora era um barco, um skiff de competição trazendo uma mulher. Estava então a não mais do que cinco metros da margem. Com a cabeça pendendo para o lado, parecia desfalecida. Um pânico se apossou dele. Sabia bem por que estava ali: fugia do terceiro agouro, que lhe havia sido contado por Maria Rita, no dia da missa do avô. O agouro que se anunciara duas horas antes, quando saiu de casa numa corrida aflita, para vir se isolar do mundo nas pedras da margem oeste da ilha. Maldito barco.

Arrumava livros na estante da sala. No player, alguém pedia “um machado pra quebrar o gelo-ô e uma chance pra tentar viver sem dor". Ele entrou pela janela por onde também penetrava o revigorante ar fresco da manhã. Quando deu por si, estava diante dele. A voz de Maria Rita soou clara, em videoteipe: “Se um beija-flor invade a casa é sinal de mau agouro”. Por isso estava ali, vendo a moça descendo o rio num barco errante. Pensou ter ouvido um murmúrio, como um pedido de ajuda.

Sem pensar, jogou-se na água para fazer o resgate. Pulou em pé, como quem pula no vazio. Vestia jeans, tênis e camisa pólo. Ao cair na água, seus pés foram encontrar o fundo lamacento e enterram-se nele até os joelhos. Lutou contra a armadilha. Debateu-se, forçando para se desvencilhar, sentindo o ar ausente apertando o peito. Aos poucos, os movimentos vigorosos diluíram a lama na corrente e ele soltou-se da terra que o engolia. Livre do lodo, impulsionou-se com força na direção da claridade. Em braçadas desesperadas, buscou a superfície. Quando emergiu ansiando por um quinhão de ar, sua cabeça golpeou o casco do skiff. Um baque seco, único, definitivo. A água ao redor rodou enegrecendo. Sequer pôde sentir o gosto do caldo barrento transitando pela boca em direção aos pulmões. Sombras envolveram seu corpo como serpentes famintas e sugaram toda a luz que havia.

Friday, August 15, 2008

Chicletes

Se chiclete não perdesse o gosto, chiclete não teria graça.
Imaginem ficar mastigando a goma 1 hora, 2, 5, 30 horas, sempre o mesmo gosto, uma chatice enjoativa sem sentido. Ninguém iria mascar chiclete. Mas quando o chiclete perde o gosto, a gente se aborrece, sem se dar conta de que o perder o sabor é a sua própria alma. Viajar é gostoso, não é?

Tuesday, April 29, 2008

No espaço


"Pois... neste mundo nefando,"

me disse um velho aldeão,

"mais vale um pássaro na mão,

do que um padre voando."

Sunday, April 27, 2008

Como já disse, o problema é fórmico. Falta de assunto as quatro da manhã, não me acontece. Caetano na Itapema. Preciso de óculos, esse já venceu. Muito riscado e já preciso de aumento maior. Agora é enrolar até encontrar o que dizer antes de perder a tua atenção.

Estava pensando sobre ciúme. Um sentimento pervertido já no macaco. Alguma emoção basicamente útil deve ter degenerado nessa que já nem útil é. Não serve para nada. A posse exclusiva do corpo de outrem é coisa degenerada da garantia de paternidade. Sentimento que teria evoluído de qual ânsia macáquica? A mesma? Que mal pode fazer a ti que alguém a quem ames seja feliz com o corpo que tem nos braços de quem seja?

Vergonha da comparação? Medo? Ah! Mas tem os segredos partilhados, a intimidade... Bem, mas isso não é bom? Essa sensação misteriosa de, de alguma forma, compartir o tempo no planeta não é boa? Tem de ser só contigo?
Qualquer relacionamento afetivo contigo é limitante e és apenas canalha. Mas é só questão de processar a questão. A gente faz as pazes se deixas de canalhice para com quem, veja bem, afirmas amar. Isso ai não faz a menor diferença.

Saturday, April 26, 2008

No sótão


Encontrei dois velhos pergaminhos.

No primeiro, havia doze cantilenas.

No segundo, tinha uma frase apenas:

"Águas geladas não movem moinhos".

Friday, March 21, 2008

Sangue, seda e chocolate

Quem não sabe a maior distância possivel entre um coração e um cérebro humanos? Refiro-me às peças vivas e pertencentes ao mesmo naco de gente. Pois não há cérebro capaz de manter-se vivo atuando mais do que meia centena de centimetros longe da bomba que lhe toca combustível.

Digo isso para ilustrar que embora a natureza não seja, por natureza, sábia, os fatos que a conformam tem rigor matemático. Mas o imponderável pulula e desafia a severidade natural. Um mais um é dois e dois é maior do que um. Algo bom com algo bom, há de ser coisa melhor. Seda natural é estrutura agradável de tocar. Uma blusa de seda recheada de Anna Hickmann há de ser ao menos duplamente mais aprazível.

Contudo, como referi acima, armadilhas existem nas dobras da precisão. Em época de Páscoa, é possível ver propostas reconciliações bizarras. Há quem postule, por exemplo, unir espaguete a molho de chocolate. Só a menção já traz náuseas. Então, bom com bom não é, necessariamente, bom pra caralho.

Thursday, March 20, 2008

O falso ex-"doutor"

É sábado. Está com a família na serra.
De carro, se aproxima do restaurante escolhido para almoçar: um lugar muito agradável e de boa mesa, perto do centro da cidade.
Quando reduz a velocidade em busca de uma vaga improvável, um guardador uniformizado vem em sua direção.
Abre o vidro.
- Vai ao restaurante? - pergunta o homem.
- Sim. - responde.
O guardador olha ao redor, procurando uma vaga inexistente.
Retorna o olhar para dentro do carro e, subitamente, exclama:
- Doutor! Só agora o reconheci!
Olha para o homem, que mira seu rosto pelo vidro aberto. O "doutor" era mesmo ele.
- Entra na garagem!, diz o guardador, apontando para um prédio ao lado.
E continuou:
- Eu cuido deste prédio, doutor. Vou lhe deixar estacionar numa vaga - complementou, abrindo o portão elétrico com o controle.
O “doutor” deixa os acompanhantes descerem, entra na garagem e estaciona.
Saem da garagem conversando, como velhos conhecidos.

Após o almoço, degustando o expresso, o “doutor” reserva alguns instantes para decidir como será o final da sua relação com o guardador. Não era algo tão simples. Ele era o "doutor" e pelo sorriso e gentileza oferecidos ao ser "reconhecido" ficara com a certeza de que o doutor costumava oferecer ao homem gorjetas generosas pelos serviços. Quanto deveria dar? O normal? O dobro? 20 vezes? Até mais, pensou. Se o "doutor" fosse um ricaço realmente generoso, certamente oferecia muito mais. Alguns ricos são pessoas excêntricas ao extremo. Lembrou do garçom Jose Costa, do L'Hotel, em São Paulo. Uma feita, ganhou US$ 1.000 de um hóspede satisfeito. Exemplos do tipo havia outros e ainda maiores. Não era uma decisão assim simples. Tinha que ser bem pensada, pra não alcançar uma quantia que parecesse ridícula.

Ao sair do restaurante, o homem veio em sua direção. Puxou conversa sobre o almoço, antes de abrir o portão da garagem. Adentraram. Pouco antes de entrar no carro, enquanto entregava a gorjeta habitual destinada aos guardadores de carros, o “doutor” se aproximou o suficiente para que pudesse segredar ao guardador:
- Estou praticamente falido!

Wednesday, January 30, 2008

Forma.

Se a forma e o esquema
são a luz de um poema
isso, por norma,
não se traduz.

Já o sentido,
por funda sonora verdade,
é sempre bonito, na real não importa
se na minha língua
ou na tua.

Como o gosto do beijo que é bom
na minha boca ou nas duas.

E Tem Mais...!

O desenvolvimento tecnológico do qual hoje usufruímos e que resume a totalidade real de nosso progresso como espécie, resultou do abandono gradual da religião como monitora de nossa filosofia, arte e ciência.

Quando nos referimos ao fato de que progredimos mais técnica e industrialmente do que espiritual e socialmente, evitamos tocar no óbvio. Não avançamos no terreno social e espiritual, naquilo que isso tem de convivência harmônica de grandes grupos humanos ou de simples relacionamentos individuais, simplesmente porque nestes assuntos ainda não abandonamos as religiões.

Nosso progresso moral, social e individual, ainda é cerceado pela crença tola e estúpida de que existem rituais a cumprir para merecermos uma vida além da morte. Vida essa que não se comprova, mas que absurda e religiosamente é propagada de pais para filhos, como se não tivéssemos vindo para viver, mas simplesmente morrer.

A educação da maioria dos seres humanos ditos civilizados começa pela instilação covarde de uma mentira, que se algum dia teve lugar no desenvolvimento da espécie, já não tem mais. É só estorvo. Como o foi para as ciências exatas.

Chamo a atenção, quando se diz acertada e cinicamente que o homem é um animal inviável, deve-se também levar em conta que tudo o que temos para observar é uma manada que já na infância foi mutilada espiritualmente.

É isso. Só precisamos mudar as bases de nossa civilização, e de qualquer das atuais, e tudo melhora.

Sunday, September 09, 2007

Filhos.


Teus filhos não te seguem e nem os meus a mim,
estes meninos e meninas
que são a nossa cara, como nós de seus avós,
alcançarão manhãs que não veremos e aceitarão o futuro,
qualquer que ele seja,
no instante exato em que escapando de nossas garras,
já senis e impotentes, cair em suas mãos ansiosas.

Não tem de ser assim, mas vai acontecer,
há muito que as gerações que se sucedem herdam uma realidade ruim
e, na medida de suas capacidades, inspiração e técnicas,
a tornam um pouco ou um muito pior.

Pobre juventude,
o futuro que nos permitimos preparar
vai atingi-los em cheio!

E que desculpa dar,
o que responder a quem herda um ninho quebrado?

Ao menos um caminho a não seguir,
um livro de erros a não cometer, mas não, nem isso...
Mentindo, inventando progredir, escrevemos a história
omitindo nosso fracasso em simplesmente existir.

Ainda que um Deus nos tivesse encarregado da Terra,
a responsabilidade seria nossa,
mas por que cuidar de um jardim do qual seremos expulsos?

Resta que o colapso de nossa civilização
pode não significar o fim da humanidade
e certamente não o será da vida que vai seguir sem nós,
aqui ou em qualquer lugar do universo.

(a.sisson)