Tuesday, June 20, 2006
Ecos urbanos
O grito continha uma dose de ódio incutido e saiu voando pela janela, no exato instante em que eu acomodava meu pequeno de ano e meio no balanço.
Depois, foi um “Aaaaaaaaaahhhhh!” que ricocheteou na laje do pátio e veio bater com força em meu ouvido. Existem gritos que falam, que carregam fatos consigo e este era um deles. Na verdade, não era um apenas, eram centenas vindos em ondas, ecos urbanos, nos mais variados tons, saídos de todas as janelas. Então, apanhei o menino no colo, passei ao largo da churrasqueira que servia de berço ao carvão ainda apagado e subi para me inteirar dos fatos. O que acontecera era absolutamente certo, mas o “como” continha dúvida. Fiz minha aposta em base sólida: “Vai fiadaputa, vai!” Era uma voz de mulher, uma mulher com ódio.
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A gente pensa e diz e ouve que a imprensa é inconstante e torna leviana a opinião do público. É fato puro. O amor de hoje é a aversão de amanhã. Basta um comentário, uma entrevista e uma piada, tudo vira quase nada. Pensava nisso, quando passei pela porta do elevador, mantida aberta pela mão do engenheiro que ia comigo ao encontro dos detalhes. Num cruzar de olhos percebi que estávamos de acordo. Éramos irmãos na aposta de quem deveria ir e de fato, como se ouvia, fora.
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Há tiros que se perdem e há tiro e queda. Quando tomei ciência do que ocorrera, vi que acertara na mosca. Ele participara da manobra, não como executor do tiro fatal, mas preparando o fuzilamento. Ronaldo Nazário era o safado, o filho da puta. “Vai, (gordo) fiadaputa, vai!”, era o xingamento para que fizesse algo proveitoso aquele inútil. Ele serviu Adriano. Adriano meteu na rede da Austrália.
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Dado como aleijado, por aposta pessoal de Luiz Felipe Scolari, Ronaldo tornou-se o maior jogador da Copa de 2002. Com mais três gols, torna-se o maior goleador da história dos mundiais. Dificilmente conseguirá alcançar a marca nos jogos que ainda faltam para a seleção brasileira. Esta arrisca cair vítima de si mesma. Mas Ronaldo Nazário merece respeito e terá minha torcida na busca do recorde. A cada gol dele, se houver, não vou gritar (que o menino repete tudo que ouve), mas vou sair pensando pela janela, até bater no teto da vizinha: “Arre, filha da puta!”
Tuesday, June 13, 2006
Homo supra sapiens irrationalis
Era uma vez um bode que disse:
- Quando a mentira nunca é desvendada, quem está mentindo sou eu.
Em seguida o leão falou:
- Se o bode for um mentiroso, o que o dragão diz também é mentira.
Por fim, manifestou-se o dragão:
- Quem for capaz de desvendar a minha mentira, então, ele estará dizendo a verdade.
Qual deles está mentindo?
O paradoxo de Epimênides leva a uma série de conexões que conduzem a conclusão nenhuma.
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Quase assim também é a lógica de certos exemplares, que se querem especiais, mas soçobram no mar ilógico que vomitam. É indigente o pensamento parido pleno de enfeites, mas bamboleante na lógica. O uso de adornos tem a serventia de esconder-lhe os aleijões. Indigentes metidos a sabichões, isso e' o que são. Nem uma vírgula menos. Se a maioria de uma espécie tem determinado comportamento, aquele é um comportamento da espécie. Simples e óbvio. Nem uma vírgula mais. E, se a espécie por acaso é a humana, é bem aí então que a capacidade neural do propositor se apresenta completamente nua. Pode não ser humano um comportamento da maioria da espécie? Quem quiser se excluir do time, que se exclua. Por mutante, excêntrico, o que for... Mas nunca por mais humano. E muito menos por supra sapiens. Por favor, se é para serem ridículos, que tomem as vestes dos seus pensamentos capengas e se cubram com elas. Nus, são dignos de riso.
Monday, May 29, 2006
Atenção.
Pois baseado nisso, no nicho que já ocupei entre os diversos assuntos que disputam a tua atenção, dá para estabelecer uma linha de comunicação.
Tendo a tua atenção resta o que fazer com ela, mas isso, claro, é outro assunto.
Wednesday, April 26, 2006
A Síndrome da Primeira Página.
Quando conseguir reunir número significativo de incoerências, terei escrito mais um livro. É essa a idéia da coisa. Escritores expõem seus pensamentos. É o que farei, mas não sou coerente. Tramas surgem e desaparecem sem ranço inspirado. Sem significados ocultos outros que algum sub texto mais elegante e pretensioso. Os todo-amados trocadilhos em farta e ao enfaro. Está valendo qualquer recurso para continuar com tua atenção presa até que me lembre o que tencionava escrever, mesmo que seja uma bobagem das grandes. O que até prefiro.
Levo sobre ti a enorme vantagem de que existe tempo entre um parágrafo e outro. Em compensação, não me respeitas e interrompes quando entendes. Premências do mundo exterior onde existo como referência por um ou outro papo mais absurdo, um dito mais estúpido, um comportamento social agudamente estranho. Essas coisas. Tu então... existes como pretensão minha.
Investindo bem sério nesse lance de me portar socialmente de forma adequada, obter algum proveito em companhias, agrado em novos conhecimentos, tenho reparado que a maioria mente. Ninguém sabe realmente do que está falando. O ouvir dizer gera entendimentos pervertidos e até cruéis. Todos pretendem saber algo importante, de preferência escandaloso, da hora: a síndrome da primeira página.
Em suas próprias áreas de interesse profissional são, alguns, excelências, mas teimam em falar o que não sabem ou opinar estupidamente baseados em qualquer linha de abastecimento logístico de argumentos que, via de regra, tem origem na interpretação já distorcida que um ou outro cronista tem de um determinado fato, dentro de um contexto geral que é deformado ou simplesmente omitido.
Hermann Hesse chamava esse nosso tempo de “época folhetinesca” em “o jogo das contas de vidro”. Qualquer um opina sobre qualquer coisa, entendendo ou não.
Por exemplo, eu. Não entendo picas de política. Alguns podem e se orgulham em estar como arautos de uma farsa onde a catarse se dá através da queima do dinheiro da platéia. Para mim, tornar a participar disso, está fora de questão. Dentro ou fora do picadeiro. Mas adoraria dar palpite e como senhor absoluto e inquestionável do próximo parágrafo, vou arriscar um.
A copa do mundo será o momento político mais importante do ano. O que acontecer durante a copa vai determinar se o Lula segue ou não. E não vai ter nada a ver com o resultado dela, é só que as atenções estarão nela. Qualquer armação vai passar batida, porém... pode ser que não. De toda maneira, que bom assunto para uma mesa de bar.
Sunday, April 09, 2006
O Inimigo Interno.
Dúvidas a respeito de afetos e do que os motiva é humano e comum. Não creio que irracionais as tenham. Uma vez estabelecido o laço afetivo ele jamais será posto em dúvida enquanto a situação não exigir. Como esses bichos não raciocinam, não ficam inventando coisas.
Isso chamou minha a atenção porque no distúrbio bi-polar essa área é profundamente atingida. O cara, e creiam que eu sei e me confesso, não consegue ter certeza se quem está com ele não o faz por alguma vantagem, não está só “se aproveitando” como todos os outros que já anteriormente provaram isso.
Em algum lugar já falei que os mais chegados são os mais atingidos, os mais feridos, os mais ofendidos. E é óbvio. É deles, pela proximidade, que o mundo (quando mau e cruel) se usa para massacrar, magoar, atingir, ferir, ofender. Mas nunca de maneira direta como ele faz, são insidiosos, fingem, atuam até em conjunto. Como o bi-polar já chateou tanto os amigos anteriores que estes tiveram de se afastar para não levar mais porradas (no ponto de vista deles, e com toda injustiça, agressões gratuitas) está provado que todos são traidores. Esse, todos, e mais os que virão.
O mundo de um louco é povoado por si mesmo. Existem ali as pessoas que justificam perfeitamente seu comportamento.
Em geral o bi-polar tem defensivamente o maior orgulho de desprezar a opinião dos outros. Eles podem não gostar de mim, até lhe ofereço motivo... Depois se auto-explica: eu sabia que esse cara só queria se aproveitar... joguei na cara dele e se ofendeu... Pura burrice, loucura extremada! Faz isso normalmente, mas identificará em outros o mesmo procedimento delirante com absoluta nitidez.
É perfeitamente claro que a uma insinuação destas, mesmo um aproveitador vai reagir mal, pior ainda os injustiçados e isso fecha o círculo vicioso que, SE a fase maníaca não resultar em prejuízo material perceptível, a vítima vai esconder. Não só as fase maníacas, vai esconder que vive tenso e orgulhosamente sobrevivendo a própria paranóia num ambiente que ele mesmo se esforçou por tornar especialmente insalubre.
Mas voltando ao cara que não se aceita. Qualquer sugestão de tratamento ou de existência do distúrbio é, se a situação social o permitir, ridicularizada. Vai mentir, vai proteger a possibilidade de ser quem gosta porque isso não faz mal. É, em grande parte dos casos, muito inteligente. Se não bebe até cair nem joga dinheiro para cima. É normal.
A sacanagem é que muitas vezes o barato maníaco é o exercício descontrolado de um prazer, o maior deles: se sentir o máximo. Nesse ponto entra o raciocínio mais corrosivo de todos: se sou feliz assim não vou me privar disso, os outros que se fodam.
Mas tem detalhes. Primeiro que a situação “inspirado” existe independente da fase maníaca e é mais freqüente e mais produtiva. Pude perceber isso porque no meu caso o achar que podia fazer tudo resultava em dano materiais, pessoais ou não, gravíssimos. Não poderia continuar, a possibilidade de cura (apenas em função dos prejuízos, esclareço) me alegrou, ansiava por algo que fosse efetivo. Ainda assim, inconscientemente me sabotei várias vezes deixando de tomar a medicação, coisa compreensível dado o prêmio enorme que é o sintoma mais evidente da doença o delírio de “sentir-se capaz”. Nada contra isso, mas o sentir-me capaz também incluía beber. Não esperava não perder nada ou ficar tão melhor, queria apenas não morrer bebendo.
Wednesday, April 05, 2006
Delírios.
Sim. Rejubile-se. Optei pelo delírio mais ou menos livre. Se isso não interessa, pelo menos diverte. Uma curtição típica de aeroportos. Como fico deste lado da linha de produção dos acontecimentos, não tens nem o trabalho de pensar a bobagem, faço isso por ti. Embora a desordem em meus pensamentos, conversando face a face certamente o resultado total da comunicação, a um nível de troca de idéias, seria pior do que esse que resulta de tua mudez inescapável. Tu não podes me interromper, nem mesmo para concordar. Tu só podes parar de ler. Mas em querendo conversar...
Aqueles diálogos de romance... Impossíveis. E o fio da meada foi-se. Mas volto a insistir que sentei aqui com um propósito específico e tinha algo que pareceu intimamente ligado a nossa percepção das coisas. Algo que ligava o cosmo ao arroz com lingüiça cuja ingestão vou providenciar agora. Não estava ótimo, mas alimenta igual.
Espécies ocupam seu nicho ecológico através do número de indivíduos até um limite que “eras” regulam. Grande parte, senão a maioria das convulsões social resultou em sistemas que permitiram alimentar mais gente, procriar mais, mais rapidamente, mais eficientemente. O próximo drible no ajuste será criar gente em confinamento. Conforme técnicas desenvolvidas no século passado, melhor que entrem no estábulo sorrindo. Vendo tv será melhor ainda. Transferência de renda cheira a isso, democracia implica nisso.
Monday, March 27, 2006
Mudança
Mas não creia que um cupim,
largue seu campo de pinho
e vá fazer o seu ninho
num saco clean de serragem.
Saturday, March 25, 2006
Internamento Quatro.
Como sentia, como estavam minhas emoções lá no manicômio é coisa que já não faço a menor idéia. É só um assunto engraçado, um causo que lembro sem a menor pena de mim. Não tenho nenhum problema, nenhuma angústia, nenhuma dúvida em relação a nada. Se não tenho certezas em função de que não servem para nada, porque haveria de guardar dúvidas? A maioria dos assuntos me passa como cenas de um circo. Talvez seja coisa do tempo de permanência ou características adquiridas por uma estrutura mental bastante irregular, mas até aqui operante.
Mas o que explicava é que não represento, não sou um personagem. Se conseguisse ser um outro poderia criar personagens, mas não dá. O que pensava na época em que eventualmente tinha de ser trancafiado lembro bem como enredo, mas o que sentia já não posso recuperar. Descrever a dor não é senti-la.
Tem uns por ai que não gostam que acrescente sorte na mistura que compõe minha atual realidade quimicamente estabilizada, mas é impossível. Não confie na sorte, apóie-se nela, é uma espécie de lema para mim. A sorte segue heróis até que os mata, é outro. Não houve qualquer planejamento. Uma conspiração fortuita, tudo sempre se resolvendo pelo melhor, me trouxe aqui.
Não decidi desperdiçar uma teta política que só vem prosperando. Não houve opção moral, houve insanidade. Estava tão imprestável que nem para tirar proveito de um cargo público servia. Envolvido numa trama ridícula, fui convencido a nem aparecer mais e ser um funcionário fantasma em lugar de apenas inútil. Não precisava mais nem ir! Acreditei. Precisava. Dancei. Fui exonerado. E a sorte já começa por ai. Era uma miséria de grana, mas pingava todo o mês e eu me mantinha financeiramente coçando o saco e, de tempos em tempos, desaparecendo. Enchendo a cara por dias, às vezes semanas e, pelo menos uma vez, mais de mês. Emocionalmente destruído e psicótico.
Mas ainda faltava cavar mais um pouco e fui exímio no manejo da pá. (frase inesquecível das tantas que ouvi do Brochado: “a maneira de sair do buraco não é cavando”).
Acabei com o resto da grana em um negócio estúpido, comecei a viver do aluguel da casa onde hoje moro e, de uma pensão, fui para a quarta e espero última hospedagem numa clínica psiquiátrica. Seqüência de um porre de dez dias, depois do qual perdi por completo a capacidade de me comunicar. Estava consciente, andando mal por fraco, não por bêbado, mas não conseguia falar. Lembro que, tentando andar com um mínimo de dignidade rumo a Unidade de Desintoxicação, desabei. Cheguei juntado por enfermeiros.
Não foi a única vez em que tive delírios, mas a única com a noção exata da possibilidade de imersão completa naquela outra realidade e não conseguir escapar. Assustador e por isso mesmo muito fácil de esquecer. Melhor não abrir aquela porta, melhor nem chegar até aquele corredor. Ficarei longe daquela cidade.
Então tá. Entrei na clínica – o Maninho me achou - malito, malito. Um trapo, sangrando e com diversos ferimentos sem importância. Uma graça. Unidade de Desintoxicação(UD). Uma beleza. Eu e a escória. Eu a escória. Outra vez. Lá fora as inevitáveis besteiras, a conta no boteco e qualquer outro tipo de merda que na certa aprontei, esqueci e faço questão de não lembrar.
O médico não conseguia entender minha insistência em que a causa não era o alcoolismo, que não era burro e que sabia que não podia beber e que... e que... enfim... não lembrava de ter começado. Não entendia porque tinha cometido um erro tão estúpido.
Devo ter parecido ainda mais ridículo, supondo isso possível. Preso. A UD é uma espécie de cadeia: grades, colheres, nada de vidros, tudo tão velho que nunca mais vai parecer limpo e gritos dos que ainda estão amarrados. Assim. Bem tipo presídio de filme nacional. E ali, impávido, na frente dele, a maior cara de ressaca, um dos internos mais recentes afirmando que não lembrava de ter começado a beber, nem por quê. Sim, mas de quê lembraria?
Durante mais essa aventura hospitalar meu filho viria para uma competição de natação. Pedi para sair e ficar com ele por um dia. O que entendi da resposta do médico, Dr. Aristeu, e o que ela efetivamente foi não fecha. No dia marcado, fui pegar o visto de saída. Negado.
Se, já por experiências anteriores, não tivesse a convicção arraigada de que enfurecer num hospício é péssimo negócio, teria quebrado a cara dele. Instantaneamente compreendi tudo. Vi a conspiração. Era tudo uma farsa, estava preso para sempre. Incomunicável. Naquele tempo mantinha desafetos poderosos, tinha lancetado (justamente) um empresário em muita grana, envolvimentos políticos..., isso corroborava tudo. Estavam todos envolvidos, havia uma conspiração cósmica.
Numa outra consulta, mais calmo, contei o delírio, um pouco mais de conversa sobre se esses delírios paranóicos eram comuns e quando, patati... patatá... e ele sacou, deu o diagnóstico, o remédio, a dosagem e uma vida nova. Dr. Aristeu, Clínica Psiquiátrica São José, São Jose, SC. Citá-lo e a clínica onde recebi excelente tratamento já em outras passagens, é o mínimo que posso fazer.
Mas lá dentro o tempo não passa rápido. Na primeira semana foi primeira classe, teve até visita sexual. Depois, mais lúcido(ou menos), optei pelo SUS. Na merda, mais merda. Tudo de uma vez.
Não havia intenção, mas uma estada nos escalões mais baixos da sociedade mostra bastante sobre uma realidade impenetrável para quem não esteve lá.
Tagarelice é gostosa se o som da voz for legal, mas por hoje deu.
Monday, March 20, 2006
De se pensar
Friday, March 17, 2006
Uma Trajetória Errante(Zero).
É assim: tu sempre começas a ler pelo final. Está bem... início do último texto. De qualquer maneira este é um problema de diversas pontas soltas. Repetir não dá, a menos de uma sinopse que vai me custar o saco e que aos interessados não vai interessar. Não vou fazer.
Um pouco de esforço e pelo menos isso dá para entender: a proposição é contar, na real, sem frescuras ou comedimentos morais (dor moral para mim é algo como uma dor em membro ausente) o que aconteceu em alguns momentos particularmente risíveis de minha trajetória. Exemplar no que se refere a estupidez.
Não sei mais se expliquei o jogo de palavras. Errante está como “de erro em erro”.
Não está como uma biografia porque descobri que, lá no fundo, que não sou tão cruel, ou sou apenas mais covarde do que imaginava, e não vou expor nem vivos nem mortos a menos que políticos ou figuras já públicas.
Estou nessa conversa mole para capturar leitores não mentecaptos e que entendam que para contar o que aconteceu de uma maneira útil, tem de ser do começo para o fim e não como estes textos se organizam no blog. Tu sempre vai pegar o começo do último texto e mais, tu lês quando tens saco para isso, eu também uso desse direito para escrever.
Não sei se esse negócio é hereditário ou não (o distúrbio emocional bipolar), faltam-me dados. Toda a experiência é única, o entendimento também. Comigo foi assim, tenho certeza
Com o conhecimento e a cômoda estabilidade depois que se amainaram as crises ( elas não desaparecem e no fim terminam por divertidas se usadas da melhor maneira ) constato com o olhar seriamente comprometido pelo tempo, que meu pai tinha atitudes tipicamente bipolares. Ficava emburrado por tempo indeterminado de tempos em tempos. Não posso julgar se com razão ou não, mas nunca achei justo ou entendi o porque de ficar exigente com todos. Cachorro incluído. Agora dá para entender.
As crises devem ter sido terríveis também para ele. Para os que o cercavam o terreno ficava pantanoso, qualquer deslize poderia ter conseqüências imprevisíveis, tudo poderia se interpretado como parte de uma conspiração cujo objetivo era impreciso, mas certamente malévolo. Qualquer atitude, de qualquer um, tinha a intenção de feri-lo. É como lembro.
E é bem a onda. No entanto nunca senti da parte dele as emanações de ódio que, acredito, eram claríssimas em mim. Resumindo, não me sinto nem um pouco abalado ou afetado pela bipolaridade dele que, lembro em tempo, é apenas uma teoria minha.
Não lembro da infância nem na base da reconstrução por fotos ou causos contados em raros encontros familiares, mas insisto que um ponto a ser examinado é o de que se nasce bipolar, e o desenvolvimento da doença até que seja notada afeta decisivamente o amadurecimento e a sociabilização de um indivíduo.
Quanto é muito, quanto é pouco? O teu saco ou o meu? O meu. Além de que não tem mais explicação, gasta muito tempo.
Thursday, March 16, 2006
Uma Trajetória Errante(II)
Errando aprendi a errar mais. Aperfeiçoei ao limite a capacidade de escolher o pior caminho e seguir por ele estoicamente, vítima de minha própria estupidez e movido unicamente por apaixonado desinteresse por tudo. Nada fazia sentido e a única certeza é que a vida era uma sacanagem muito grande, uma piada de gosto lamentável onde o motivo da chacota era sempre eu. Minhas emoções a respeito de qualquer assunto variavam da consideração mais racional e luminosa, verdadeiramente inspirada, até a cretinice mais absurda e uma raiva irracional que a muitos custou feridas. Das minhas posso tratar, mas e das infligi aos amigos?
De certa forma as mais fortes referências emocionais de um maluco bi-polar são as vítimas mais freqüentes da paranóia associada. Dependendo do humor, a ajuda que recebi de alguém, e bem a vi como tal na ocasião, vai parecer, num outro momento, a mais vil traição. Acredite, é possível.
Porque julgo da maior utilidade – me teria sido muito útil – vou tentar descrever como se instala o período maníaco da bipolaridade, o momento em que a vítima pensa e concorda consigo mesmo que pode exercer a sua mania só um pouquinho. Mas, atenção, esse momento já não é lúcido: outras besteiras podem ter sido feitas, decisões erradas tomadas e até a procura do motivo adequado para o passo decisivo no rumo do desastre certo.
Não sou técnico, mas pensei muito sobre o assunto. Tive de olhar bem na minha cara. Para prever e minimizar os períodos em de qualquer forma estou deprimido, mas já não sofrendo com isso ( explico depois ). Tenho de examinar constantemente a forma como estou pensando, como está o meu humor em relação a coisas cuja relação comigo é imutável. Qual o nível crítico aceitável de variação nos meus julgamentos? Quanto ácido valpróico tenho em estoque? Essas coisinhas só dependem de um esforço mínimo.
Se e quando tiver um psicótico a espreita destas linhas, saiba que de modo algum sou ou serei manso na autocrítica. Vou expor com a clareza possível o quanto é inteiramente possível controlar a doença e, principalmente, o quanto é interessante para a vítima NÃO a controlar.
Suponho que o tempo acabou. Prometo mais assiduidade.
Tuesday, March 14, 2006
Uma Trajetória Errante(I)
Escrever é bom quando flui. É o que torna bom ler. O prazer em escrever. O dar-se. Entregar o pensamento a um outro por concordância plena. O assunto pode até ser importante - se existirem assuntos importantes - mas o como, a forma, é essencial. O texto tem de entrar sem ponto. Explicar sem vírgula.
Estás de pleno acordo, mas nunca pensastes nisso... Não é assim?
O vínculo que se estabelece entre quem escreve em quem lê, quando é pela aventura de seguir um outro pensamento, é bem o da amizade sem o seguidamente incômodo da presença física. É desejável quando te decidires a isso e não precisas estar vestido.
Tu sabes do que estou falando, eu também. É como uma conversa agradável que não te solicita que fales. Ler também é como jogar conversa fora, ou num blog.
Uma Trajetória Errante(I)
E o motivo para ler tem de ser o mesmo para ti e para mim, afinal tu achas que esse texto sai direto? Não. Leio e escovo até que o primeiro leitor goste. Além do mais também tenho curiosidade de saber como vai sair uma descrição do que me aconteceu, como foi chegar aqui, na praia. Evidente que do oceano seria muito simples. Vim através do continente, nadando do seco, do difícil, do burro.
Começa que não usei a minha vida, assisti. Vi o desenrolar de uma tragédia pessoal inteiramente sem propósito. Natural que fiz uma escolha: vou no que pintar, sem plano. Um engano trazendo outro e tudo se encadeando para um final desagradável que já não parece vá acontecer, mas sabe-se lá...
De um livro daqueles sempre lidos na adolescência guardei uma expressão: não analisa. Chama “Encontro Marcado” e o escritor é Fernando Sabino, ótimo. Tudo o que fiz foi mais ou menos assim, sem analisar as conseqüências, implicações ou repercussões. Na idade comum à procriação tive uma filha de um casamento que não foi idéia minha e depois, bem logo, mais uma filha e um filho de outro casamento que também não foi idéia minha.
Em nenhum momento achei que fossem dar certo, mas era o andar aparentemente natural das coisas. Não pretendi e nada fiz que pudesse tornar esses relacionamentos em sucessos. É totalmente indiferente assumir culpas. Não as sinto. Quanto ao pecado original, só lamento não ter participado.
Já de muito antes dos casamentos deixava que os acontecimentos acontecessem sozinhos em quase todas as direções. Tenho dificuldades com escolhas, até hoje um menu é um incômodo, quando não um horrível constrangimento: ali, no nojento momento do cardápio, comeria qualquer coisa só para não decidir.
Algumas mães muito estúpidas avaliam os filhos pela idade que tem. Antes de mim, um ano e um mês antes, meus pais tiveram o único irmão sanguíneo por completo que tenho. Um aplique certeiro de minha mãe em um médico famoso e, na época, bem de grana. Como já se vê, quem a salvou da miséria foi ele ( meu irmão ) e não eu.
Essa mulher me cuidava pra não levar bronca do velho. Papel de mãe nunca fez, era uma espécie de polícia que protegia o primeiro filho varão do estorvo que surgiu depois. Eu. Manifestar ser melhor que meu irmão (a ele não cabe responsabilidade alguma) era pecado e abria as portas do inferno. Um inferno real. A falta de carinho da parte dela até exerceu seus efeitos, mas nada comparado ao desprezo e o repúdio explícito ofertado quando me destacava mais que o preferido em qualquer atividade. Aprendi a sempre ser o segundo. Fazer o melhor possível resultava mau.
Vale observar que tenho distúrbio emocional bipolar e posso ter sido daquelas crianças que mordem a teta o que, de certa forma, a justificaria (minha mãe tinha o primário incompleto). Sempre fui chato e problemático, minha infância, da qual não lembro picas, piorou algo que já deve ter vindo de berço.
E aqui bati num assunto de interesse: a bipolaridade.
Tentando ser menos cruel do que fui no parágrafo em que descrevo a mulher que me cuidou, vou contar como foi uma vida bipolar. Do ponto de vista do paciente que, no caso, foi também agente. Começa pela pré-adolescência. Capítulo esportes: natação.
Antes, uma colocação. Quase nunca fiz exames, em geral passava por média ou fazia provas por excesso de faltas e nunca, absolutamente, nunca estudei. Ler bastava. Isso, como se verá, até o vestibular de Medicina. Naquela ocasião, ameaçado de ter de me sustentar se não passasse, tive que encarar sério um rush de dois meses de árduos estudos. Foram suficientes para dez anos e seis vestibulares. Comecei vários cursos universitários e não conclui nenhum. Aliás, confesso, nunca conclui nada.
(Agora peguei vários leitores. Para interessar ainda mais, tem alcoolismo no meio!!!)
Monday, March 13, 2006
Ora blogs
Ser lido é não.
Pessoal vão ler coisas que outros depositam por dois motivos extremos:
1) porque amam as coisas que o postante escreve, e
2) porque odeiam.
As primeiras vêm para sentir gosto de mel.
As segundas para destilar fel.
Não era para rimar, mas aí está. Fazer o quê?
Então, tornar um blog popular é fazê-lo chegar às populações que habitam a vizinhança dos pólos da opinião expressa.
Mas ser lido não é tudo: pode ser diversão escrever apenas por exercício, como quem deseja tirar a flacidez de alguma barriga mental.
É possível ser apenas isso e pode ser bom.
Sunday, March 12, 2006
Despertando Interesse
Mais enfeitado, o texto anterior falava nessas de escrever como uma forma de comunicação "para fora da possibilidade do soco", à distância conveniente para ofensas. O Leitor Suposto é um saco de pancadas e tanto, alguns escrevem na suposição de que ele gosta é de ser ofendido, ter as opiniões contrariadas... etc... tudo são maneiras de despertar interesse.