Thursday, March 20, 2008

O falso ex-"doutor"

É sábado. Está com a família na serra.
De carro, se aproxima do restaurante escolhido para almoçar: um lugar muito agradável e de boa mesa, perto do centro da cidade.
Quando reduz a velocidade em busca de uma vaga improvável, um guardador uniformizado vem em sua direção.
Abre o vidro.
- Vai ao restaurante? - pergunta o homem.
- Sim. - responde.
O guardador olha ao redor, procurando uma vaga inexistente.
Retorna o olhar para dentro do carro e, subitamente, exclama:
- Doutor! Só agora o reconheci!
Olha para o homem, que mira seu rosto pelo vidro aberto. O "doutor" era mesmo ele.
- Entra na garagem!, diz o guardador, apontando para um prédio ao lado.
E continuou:
- Eu cuido deste prédio, doutor. Vou lhe deixar estacionar numa vaga - complementou, abrindo o portão elétrico com o controle.
O “doutor” deixa os acompanhantes descerem, entra na garagem e estaciona.
Saem da garagem conversando, como velhos conhecidos.

Após o almoço, degustando o expresso, o “doutor” reserva alguns instantes para decidir como será o final da sua relação com o guardador. Não era algo tão simples. Ele era o "doutor" e pelo sorriso e gentileza oferecidos ao ser "reconhecido" ficara com a certeza de que o doutor costumava oferecer ao homem gorjetas generosas pelos serviços. Quanto deveria dar? O normal? O dobro? 20 vezes? Até mais, pensou. Se o "doutor" fosse um ricaço realmente generoso, certamente oferecia muito mais. Alguns ricos são pessoas excêntricas ao extremo. Lembrou do garçom Jose Costa, do L'Hotel, em São Paulo. Uma feita, ganhou US$ 1.000 de um hóspede satisfeito. Exemplos do tipo havia outros e ainda maiores. Não era uma decisão assim simples. Tinha que ser bem pensada, pra não alcançar uma quantia que parecesse ridícula.

Ao sair do restaurante, o homem veio em sua direção. Puxou conversa sobre o almoço, antes de abrir o portão da garagem. Adentraram. Pouco antes de entrar no carro, enquanto entregava a gorjeta habitual destinada aos guardadores de carros, o “doutor” se aproximou o suficiente para que pudesse segredar ao guardador:
- Estou praticamente falido!

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