Como sentia, como estavam minhas emoções lá no manicômio é coisa que já não faço a menor idéia. É só um assunto engraçado, um causo que lembro sem a menor pena de mim. Não tenho nenhum problema, nenhuma angústia, nenhuma dúvida em relação a nada. Se não tenho certezas em função de que não servem para nada, porque haveria de guardar dúvidas? A maioria dos assuntos me passa como cenas de um circo. Talvez seja coisa do tempo de permanência ou características adquiridas por uma estrutura mental bastante irregular, mas até aqui operante.
Mas o que explicava é que não represento, não sou um personagem. Se conseguisse ser um outro poderia criar personagens, mas não dá. O que pensava na época em que eventualmente tinha de ser trancafiado lembro bem como enredo, mas o que sentia já não posso recuperar. Descrever a dor não é senti-la.
Tem uns por ai que não gostam que acrescente sorte na mistura que compõe minha atual realidade quimicamente estabilizada, mas é impossível. Não confie na sorte, apóie-se nela, é uma espécie de lema para mim. A sorte segue heróis até que os mata, é outro. Não houve qualquer planejamento. Uma conspiração fortuita, tudo sempre se resolvendo pelo melhor, me trouxe aqui.
Não decidi desperdiçar uma teta política que só vem prosperando. Não houve opção moral, houve insanidade. Estava tão imprestável que nem para tirar proveito de um cargo público servia. Envolvido numa trama ridícula, fui convencido a nem aparecer mais e ser um funcionário fantasma em lugar de apenas inútil. Não precisava mais nem ir! Acreditei. Precisava. Dancei. Fui exonerado. E a sorte já começa por ai. Era uma miséria de grana, mas pingava todo o mês e eu me mantinha financeiramente coçando o saco e, de tempos em tempos, desaparecendo. Enchendo a cara por dias, às vezes semanas e, pelo menos uma vez, mais de mês. Emocionalmente destruído e psicótico.
Mas ainda faltava cavar mais um pouco e fui exímio no manejo da pá. (frase inesquecível das tantas que ouvi do Brochado: “a maneira de sair do buraco não é cavando”).
Acabei com o resto da grana em um negócio estúpido, comecei a viver do aluguel da casa onde hoje moro e, de uma pensão, fui para a quarta e espero última hospedagem numa clínica psiquiátrica. Seqüência de um porre de dez dias, depois do qual perdi por completo a capacidade de me comunicar. Estava consciente, andando mal por fraco, não por bêbado, mas não conseguia falar. Lembro que, tentando andar com um mínimo de dignidade rumo a Unidade de Desintoxicação, desabei. Cheguei juntado por enfermeiros.
Não foi a única vez em que tive delírios, mas a única com a noção exata da possibilidade de imersão completa naquela outra realidade e não conseguir escapar. Assustador e por isso mesmo muito fácil de esquecer. Melhor não abrir aquela porta, melhor nem chegar até aquele corredor. Ficarei longe daquela cidade.
Então tá. Entrei na clínica – o Maninho me achou - malito, malito. Um trapo, sangrando e com diversos ferimentos sem importância. Uma graça. Unidade de Desintoxicação(UD). Uma beleza. Eu e a escória. Eu a escória. Outra vez. Lá fora as inevitáveis besteiras, a conta no boteco e qualquer outro tipo de merda que na certa aprontei, esqueci e faço questão de não lembrar.
O médico não conseguia entender minha insistência em que a causa não era o alcoolismo, que não era burro e que sabia que não podia beber e que... e que... enfim... não lembrava de ter começado. Não entendia porque tinha cometido um erro tão estúpido.
Devo ter parecido ainda mais ridículo, supondo isso possível. Preso. A UD é uma espécie de cadeia: grades, colheres, nada de vidros, tudo tão velho que nunca mais vai parecer limpo e gritos dos que ainda estão amarrados. Assim. Bem tipo presídio de filme nacional. E ali, impávido, na frente dele, a maior cara de ressaca, um dos internos mais recentes afirmando que não lembrava de ter começado a beber, nem por quê. Sim, mas de quê lembraria?
Durante mais essa aventura hospitalar meu filho viria para uma competição de natação. Pedi para sair e ficar com ele por um dia. O que entendi da resposta do médico, Dr. Aristeu, e o que ela efetivamente foi não fecha. No dia marcado, fui pegar o visto de saída. Negado.
Se, já por experiências anteriores, não tivesse a convicção arraigada de que enfurecer num hospício é péssimo negócio, teria quebrado a cara dele. Instantaneamente compreendi tudo. Vi a conspiração. Era tudo uma farsa, estava preso para sempre. Incomunicável. Naquele tempo mantinha desafetos poderosos, tinha lancetado (justamente) um empresário em muita grana, envolvimentos políticos..., isso corroborava tudo. Estavam todos envolvidos, havia uma conspiração cósmica.
Numa outra consulta, mais calmo, contei o delírio, um pouco mais de conversa sobre se esses delírios paranóicos eram comuns e quando, patati... patatá... e ele sacou, deu o diagnóstico, o remédio, a dosagem e uma vida nova. Dr. Aristeu, Clínica Psiquiátrica São José, São Jose, SC. Citá-lo e a clínica onde recebi excelente tratamento já em outras passagens, é o mínimo que posso fazer.
Mas lá dentro o tempo não passa rápido. Na primeira semana foi primeira classe, teve até visita sexual. Depois, mais lúcido(ou menos), optei pelo SUS. Na merda, mais merda. Tudo de uma vez.
Não havia intenção, mas uma estada nos escalões mais baixos da sociedade mostra bastante sobre uma realidade impenetrável para quem não esteve lá.
Tagarelice é gostosa se o som da voz for legal, mas por hoje deu.
No comments:
Post a Comment