Inventando Motivo
Escrever é bom quando flui. É o que torna bom ler. O prazer em escrever. O dar-se. Entregar o pensamento a um outro por concordância plena. O assunto pode até ser importante - se existirem assuntos importantes - mas o como, a forma, é essencial. O texto tem de entrar sem ponto. Explicar sem vírgula.
Estás de pleno acordo, mas nunca pensastes nisso... Não é assim?
O vínculo que se estabelece entre quem escreve em quem lê, quando é pela aventura de seguir um outro pensamento, é bem o da amizade sem o seguidamente incômodo da presença física. É desejável quando te decidires a isso e não precisas estar vestido.
Tu sabes do que estou falando, eu também. É como uma conversa agradável que não te solicita que fales. Ler também é como jogar conversa fora, ou num blog.
Uma Trajetória Errante(I)
E o motivo para ler tem de ser o mesmo para ti e para mim, afinal tu achas que esse texto sai direto? Não. Leio e escovo até que o primeiro leitor goste. Além do mais também tenho curiosidade de saber como vai sair uma descrição do que me aconteceu, como foi chegar aqui, na praia. Evidente que do oceano seria muito simples. Vim através do continente, nadando do seco, do difícil, do burro.
Começa que não usei a minha vida, assisti. Vi o desenrolar de uma tragédia pessoal inteiramente sem propósito. Natural que fiz uma escolha: vou no que pintar, sem plano. Um engano trazendo outro e tudo se encadeando para um final desagradável que já não parece vá acontecer, mas sabe-se lá...
De um livro daqueles sempre lidos na adolescência guardei uma expressão: não analisa. Chama “Encontro Marcado” e o escritor é Fernando Sabino, ótimo. Tudo o que fiz foi mais ou menos assim, sem analisar as conseqüências, implicações ou repercussões. Na idade comum à procriação tive uma filha de um casamento que não foi idéia minha e depois, bem logo, mais uma filha e um filho de outro casamento que também não foi idéia minha.
Em nenhum momento achei que fossem dar certo, mas era o andar aparentemente natural das coisas. Não pretendi e nada fiz que pudesse tornar esses relacionamentos em sucessos. É totalmente indiferente assumir culpas. Não as sinto. Quanto ao pecado original, só lamento não ter participado.
Já de muito antes dos casamentos deixava que os acontecimentos acontecessem sozinhos em quase todas as direções. Tenho dificuldades com escolhas, até hoje um menu é um incômodo, quando não um horrível constrangimento: ali, no nojento momento do cardápio, comeria qualquer coisa só para não decidir.
Algumas mães muito estúpidas avaliam os filhos pela idade que tem. Antes de mim, um ano e um mês antes, meus pais tiveram o único irmão sanguíneo por completo que tenho. Um aplique certeiro de minha mãe em um médico famoso e, na época, bem de grana. Como já se vê, quem a salvou da miséria foi ele ( meu irmão ) e não eu.
Essa mulher me cuidava pra não levar bronca do velho. Papel de mãe nunca fez, era uma espécie de polícia que protegia o primeiro filho varão do estorvo que surgiu depois. Eu. Manifestar ser melhor que meu irmão (a ele não cabe responsabilidade alguma) era pecado e abria as portas do inferno. Um inferno real. A falta de carinho da parte dela até exerceu seus efeitos, mas nada comparado ao desprezo e o repúdio explícito ofertado quando me destacava mais que o preferido em qualquer atividade. Aprendi a sempre ser o segundo. Fazer o melhor possível resultava mau.
Vale observar que tenho distúrbio emocional bipolar e posso ter sido daquelas crianças que mordem a teta o que, de certa forma, a justificaria (minha mãe tinha o primário incompleto). Sempre fui chato e problemático, minha infância, da qual não lembro picas, piorou algo que já deve ter vindo de berço.
E aqui bati num assunto de interesse: a bipolaridade.
Tentando ser menos cruel do que fui no parágrafo em que descrevo a mulher que me cuidou, vou contar como foi uma vida bipolar. Do ponto de vista do paciente que, no caso, foi também agente. Começa pela pré-adolescência. Capítulo esportes: natação.
Antes, uma colocação. Quase nunca fiz exames, em geral passava por média ou fazia provas por excesso de faltas e nunca, absolutamente, nunca estudei. Ler bastava. Isso, como se verá, até o vestibular de Medicina. Naquela ocasião, ameaçado de ter de me sustentar se não passasse, tive que encarar sério um rush de dois meses de árduos estudos. Foram suficientes para dez anos e seis vestibulares. Comecei vários cursos universitários e não conclui nenhum. Aliás, confesso, nunca conclui nada.
(Agora peguei vários leitores. Para interessar ainda mais, tem alcoolismo no meio!!!)
Escrever é bom quando flui. É o que torna bom ler. O prazer em escrever. O dar-se. Entregar o pensamento a um outro por concordância plena. O assunto pode até ser importante - se existirem assuntos importantes - mas o como, a forma, é essencial. O texto tem de entrar sem ponto. Explicar sem vírgula.
Estás de pleno acordo, mas nunca pensastes nisso... Não é assim?
O vínculo que se estabelece entre quem escreve em quem lê, quando é pela aventura de seguir um outro pensamento, é bem o da amizade sem o seguidamente incômodo da presença física. É desejável quando te decidires a isso e não precisas estar vestido.
Tu sabes do que estou falando, eu também. É como uma conversa agradável que não te solicita que fales. Ler também é como jogar conversa fora, ou num blog.
Uma Trajetória Errante(I)
E o motivo para ler tem de ser o mesmo para ti e para mim, afinal tu achas que esse texto sai direto? Não. Leio e escovo até que o primeiro leitor goste. Além do mais também tenho curiosidade de saber como vai sair uma descrição do que me aconteceu, como foi chegar aqui, na praia. Evidente que do oceano seria muito simples. Vim através do continente, nadando do seco, do difícil, do burro.
Começa que não usei a minha vida, assisti. Vi o desenrolar de uma tragédia pessoal inteiramente sem propósito. Natural que fiz uma escolha: vou no que pintar, sem plano. Um engano trazendo outro e tudo se encadeando para um final desagradável que já não parece vá acontecer, mas sabe-se lá...
De um livro daqueles sempre lidos na adolescência guardei uma expressão: não analisa. Chama “Encontro Marcado” e o escritor é Fernando Sabino, ótimo. Tudo o que fiz foi mais ou menos assim, sem analisar as conseqüências, implicações ou repercussões. Na idade comum à procriação tive uma filha de um casamento que não foi idéia minha e depois, bem logo, mais uma filha e um filho de outro casamento que também não foi idéia minha.
Em nenhum momento achei que fossem dar certo, mas era o andar aparentemente natural das coisas. Não pretendi e nada fiz que pudesse tornar esses relacionamentos em sucessos. É totalmente indiferente assumir culpas. Não as sinto. Quanto ao pecado original, só lamento não ter participado.
Já de muito antes dos casamentos deixava que os acontecimentos acontecessem sozinhos em quase todas as direções. Tenho dificuldades com escolhas, até hoje um menu é um incômodo, quando não um horrível constrangimento: ali, no nojento momento do cardápio, comeria qualquer coisa só para não decidir.
Algumas mães muito estúpidas avaliam os filhos pela idade que tem. Antes de mim, um ano e um mês antes, meus pais tiveram o único irmão sanguíneo por completo que tenho. Um aplique certeiro de minha mãe em um médico famoso e, na época, bem de grana. Como já se vê, quem a salvou da miséria foi ele ( meu irmão ) e não eu.
Essa mulher me cuidava pra não levar bronca do velho. Papel de mãe nunca fez, era uma espécie de polícia que protegia o primeiro filho varão do estorvo que surgiu depois. Eu. Manifestar ser melhor que meu irmão (a ele não cabe responsabilidade alguma) era pecado e abria as portas do inferno. Um inferno real. A falta de carinho da parte dela até exerceu seus efeitos, mas nada comparado ao desprezo e o repúdio explícito ofertado quando me destacava mais que o preferido em qualquer atividade. Aprendi a sempre ser o segundo. Fazer o melhor possível resultava mau.
Vale observar que tenho distúrbio emocional bipolar e posso ter sido daquelas crianças que mordem a teta o que, de certa forma, a justificaria (minha mãe tinha o primário incompleto). Sempre fui chato e problemático, minha infância, da qual não lembro picas, piorou algo que já deve ter vindo de berço.
E aqui bati num assunto de interesse: a bipolaridade.
Tentando ser menos cruel do que fui no parágrafo em que descrevo a mulher que me cuidou, vou contar como foi uma vida bipolar. Do ponto de vista do paciente que, no caso, foi também agente. Começa pela pré-adolescência. Capítulo esportes: natação.
Antes, uma colocação. Quase nunca fiz exames, em geral passava por média ou fazia provas por excesso de faltas e nunca, absolutamente, nunca estudei. Ler bastava. Isso, como se verá, até o vestibular de Medicina. Naquela ocasião, ameaçado de ter de me sustentar se não passasse, tive que encarar sério um rush de dois meses de árduos estudos. Foram suficientes para dez anos e seis vestibulares. Comecei vários cursos universitários e não conclui nenhum. Aliás, confesso, nunca conclui nada.
(Agora peguei vários leitores. Para interessar ainda mais, tem alcoolismo no meio!!!)
3 comments:
Bom fio, a indicar que boa poderá ser a meada.
Assim não vale. Te comprei a churrascos pensando na exclusividade da tua história. No prazer inebriável de ser um dos poucos a conhecer tuas entranhas. Assim me obrigas a:
1) disseminar que o blog é uma bosta
2) "esquecer" de te convidar para a próxima picanha.
Qual tua escolha?
As pessoas não vão acreditar na opção 1 e o Arnaldo não vai acreditar na opção 2.
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