A presença do trinta e oito engatilhado, a respiração nervosa e entrecortada do assaltante o faz tremer. Difícil acertar a combinação do cofre. Suor frio. Essa merda não abre. Calma. O cofre abre. O tiro entra pela nuca. Muito sangue e agora parte dos miolos são o único conteúdo do cofre. A queima roupa o refluxo do sangue respinga tudo, está coberto de sangue.
Merda. Um assassinato por nada. Não tinha ficha policia e agora está nessa roubada. Um crime de morte. Não pensou nada, a arma disparou por descuido e nervosismo. Ficar calmo. O prédio é de muito movimento. O ruído do disparo não deve ter chamado atenção. Da porta se vê o corpo, o escritório é pequeno. Vai até a porta. Ninguém no corredor. O elevador dá sinal e para, um homem e uma mulher. Despedem-se, o homem vem em sua direção, a mulher volta para o elevador e desaparece.
O homem pergunta pela pequena joalheria. Ele aponta o letreiro na porta: Jóias Pamb. Deixa que o homem passe. Entra atrás e fecha a porta. Está lúcido. Domina o recém chegado.
Tudo incomoda. O cheiro do sangue, o cadáver esvaziado de merda e mijo. A situação escrota. A informação errada, o cofre vazio, o crime por nada. Os edifícios à frente não têm boa visão do cubículo. Apenas uma sala e o banheiro. Uma janela para os edifícios, outra no banheiro para o poço de ventilação do prédio.
O homem tem a mesma estatura, pouco mais alto. Limpa-se o melhor possível e força a troca de roupa com o refém que só trata de obedecer e pedir calma. Ficou fácil. Examina os bolsos. Pouco dinheiro. Documentos. Livra-se dos documentos no poço do prédio e conserva os seus. Uma identidade falsa que vai ter de inutilizar. Pena, gostava de ser Prof. Engenheiro Humberto Roman. Liga para a polícia. Assalto com tiros na galeria Empty Panellieri. Quinto andar. Joalheria Pamb.
Observa a rua e aguarda. A polícia chega. Apenas um carro. É pouco. Atira várias vezes na viatura. Pânico. Correria. A demora usual das unidades de resposta rápida e está cercado. Atiradores de elite, ambulâncias, imprensa, a festa toda. Liga para a polícia, informa do refém. Desconfia da polícia e exige se entregar ao exército. Um prato para a mídia.
Espera. O telefone toca. Atende. Um comandante do exército. Diz que vai se entregar e interrompe com ruídos simulando luta. Deixa cair o telefone sem desligar. Sempre derrubando coisas, traz o refém até perto do telefone, abraça-se a ele e atira no coração, à queima roupa.
Completamente descontrolado, aos gritos, alcança o telefone e continua berrando “eu o peguei, eu o peguei”, começa a soluçar e corta a ligação. Arruma o que falta, arma na mão deste segundo morto numa posição possível.
Treme descontroladamente e chora muito. Impossível falar. Ensangüentado em estado de choque, é levado para o hospital. Identificado como o refém que dominou o assaltante é deixado para descansar antes mesmo de ser interrogado. Desaparece.
Não vai voltar a cidade. No aeroporto lê sobre o caso que já não tem o mesmo destaque dos primeiros dias. O estardalhaço inicial fez com que seus contatos desaparecessem. Dois assassinatos. Pura perda.
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