Andava tenso. Joe Notebook não era disso, mas os últimos acontecimentos não foram conforme esperava e, além disso, não conseguia achar pães redondos. Voltara para a serra, para a calma, um lugar onde era apenas mais um morador sazonal com conta corrente na zona e muita conversa jogada fora jogando truco. Nem sempre perdia e achava isso bastante estranho. O sotaque italiano carregado, estudado e puxado para o ridículo fazia com que todos o lembrassem. Um espertinho o chamara de Mussolini, ele rira. Uma casquinada horrorosa, chamativa. Nunca mais chamaram por outra coisa. Mussolini, o da casa que brilha. Mussolini, do jipão verde sujo.
A casa redonda era assim desde décadas. Não tem com a mania por pães redondos. Comprara redonda e redonda ficaria até que outros a demolissem. A varanda, toda a volta, vidro. Dependendo o ângulo e da hora, um brilho de sol na encosta. Acesso fácil para quem estivesse disposto a uma longa e íngreme subida com buracos mais ou menos permanentes conforme a estação. O jipão verde sujo do Mussolini só às vezes descia. O mais das vezes para a zona.
Gostava de caminhar e os pães redondos que vinha tentando introduzir na dieta dos nativos ainda não tinham procura. Uma hipótese para o fim trágico dos Timbiras está na recusa em trocar a papa de inhame por purê de batatas com espinafres. Só conseguia pães no formato adequado vez por outra quando era o queridinho das moças da padaria. Nem sempre era. Se passasse muito tempo sem sair com alguma, reacendendo naqueles corações a esperança de que um dia alguma o fisgasse, começava a notar o pão mais difícil. É como são as mulheres e como Joe sabe que também é. Humanos são ratos trocadores de tudo, afeto, sentimentos... Coisas até.
Andar até a vila não era desagradável. Barrento e exaustivo, mas não desagradável. Flertava com a moça da farmácia umas três vezes por semana. Gorda, bonita, olhos bem azuis. Casada recente. Coisa entre o sucesso do penúltimo empreendimento, o caso Gorki, e o fiasco pessoal da Vigília das Camisas.
Como não gostava de trabalhar, também não gostava de lembrar. Ali era apenas o Mussolini. Moçolim para as moças da zona de puteiros. Gostavam do jipão verde sujo e era comum alguma na casa redonda. Na camaradagem do truco as chamava de esposas.
Uma delas foi mais sério. Engravidou, mas desapareceu. Tinha sido a esposa mais assídua. Ficava quieta, só queria estar ali, na casa.
Viajar nunca tinha sido opção de lazer. Jamais por prazer. Grana muito gorda ou favores devidos podiam movê-lo a executar algum serviço fora do país. Dominava alguns idiomas de forma rudimentar. Fazia questão de manter a pronúncia ridícula de modo a que fosse impossível adivinhar qual a língua mãe. Não falava com sotaque, andava sobre a linha do incompreensível. Era capaz de ir a maior parte dos países (diversos passaportes, tralha e tal), mas interesse não tinha em nenhum. Nem investimentos ou mulheres. Picas.
Uma coisa leva a outra e começou uma experiência com fatias quadradas. Se o negócio é fazer a ponto de mudar um hábito, então que seja direito. Fatias quadradas e exatas de um tamanho tal que caiba justo na nova sanduicheira quadrada. Joe não usa esmagar as bordas do sanduíche. Nem na sanduicheira redonda, a velha preferida de quase década.
Muito antes do problema da faca, onde alguns poderiam ver manifestação de psicose, já a mortadela e o queijo, por não serem localmente fabricados cúbicos apresentaram dificuldades. Conhecedor, também rudimentar, de culinária, mas apaixonado por apetrechos, Joe sabe que existem facas específicas. Os japoneses também sabem. Pode ser que existam facas de cortar quadrados, mas facas, não “carimbos” como os moldes de massa de pastel. Esses não cortam, esmagam as bordas, mutilam.
Joe considera sair à busca da faca de corte quadrado. É quando começa a cair.
A casa redonda era assim desde décadas. Não tem com a mania por pães redondos. Comprara redonda e redonda ficaria até que outros a demolissem. A varanda, toda a volta, vidro. Dependendo o ângulo e da hora, um brilho de sol na encosta. Acesso fácil para quem estivesse disposto a uma longa e íngreme subida com buracos mais ou menos permanentes conforme a estação. O jipão verde sujo do Mussolini só às vezes descia. O mais das vezes para a zona.
Gostava de caminhar e os pães redondos que vinha tentando introduzir na dieta dos nativos ainda não tinham procura. Uma hipótese para o fim trágico dos Timbiras está na recusa em trocar a papa de inhame por purê de batatas com espinafres. Só conseguia pães no formato adequado vez por outra quando era o queridinho das moças da padaria. Nem sempre era. Se passasse muito tempo sem sair com alguma, reacendendo naqueles corações a esperança de que um dia alguma o fisgasse, começava a notar o pão mais difícil. É como são as mulheres e como Joe sabe que também é. Humanos são ratos trocadores de tudo, afeto, sentimentos... Coisas até.
Andar até a vila não era desagradável. Barrento e exaustivo, mas não desagradável. Flertava com a moça da farmácia umas três vezes por semana. Gorda, bonita, olhos bem azuis. Casada recente. Coisa entre o sucesso do penúltimo empreendimento, o caso Gorki, e o fiasco pessoal da Vigília das Camisas.
Como não gostava de trabalhar, também não gostava de lembrar. Ali era apenas o Mussolini. Moçolim para as moças da zona de puteiros. Gostavam do jipão verde sujo e era comum alguma na casa redonda. Na camaradagem do truco as chamava de esposas.
Uma delas foi mais sério. Engravidou, mas desapareceu. Tinha sido a esposa mais assídua. Ficava quieta, só queria estar ali, na casa.
Viajar nunca tinha sido opção de lazer. Jamais por prazer. Grana muito gorda ou favores devidos podiam movê-lo a executar algum serviço fora do país. Dominava alguns idiomas de forma rudimentar. Fazia questão de manter a pronúncia ridícula de modo a que fosse impossível adivinhar qual a língua mãe. Não falava com sotaque, andava sobre a linha do incompreensível. Era capaz de ir a maior parte dos países (diversos passaportes, tralha e tal), mas interesse não tinha em nenhum. Nem investimentos ou mulheres. Picas.
Uma coisa leva a outra e começou uma experiência com fatias quadradas. Se o negócio é fazer a ponto de mudar um hábito, então que seja direito. Fatias quadradas e exatas de um tamanho tal que caiba justo na nova sanduicheira quadrada. Joe não usa esmagar as bordas do sanduíche. Nem na sanduicheira redonda, a velha preferida de quase década.
Muito antes do problema da faca, onde alguns poderiam ver manifestação de psicose, já a mortadela e o queijo, por não serem localmente fabricados cúbicos apresentaram dificuldades. Conhecedor, também rudimentar, de culinária, mas apaixonado por apetrechos, Joe sabe que existem facas específicas. Os japoneses também sabem. Pode ser que existam facas de cortar quadrados, mas facas, não “carimbos” como os moldes de massa de pastel. Esses não cortam, esmagam as bordas, mutilam.
Joe considera sair à busca da faca de corte quadrado. É quando começa a cair.
1 comment:
Que bom que o Joe voltou!
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