Camisas II.
"A emoção é nenhuma, mas lá está ele. Hoje está verde como pedaços de grama que o calor e a estiagem ainda não secaram. Quantas camisas verdes esse animal terá? Animal, sim, animal! Não o conheço, não sei nome, não quero saber. Não gosto dele. Ninguém me faz sofrer assim desde o ginásio. Não é culpa dele? Claro que é, alguma fez para alguém ou eu não estaria condenado.
Bah! Não vou me enganar. Sem desculpas. Penso em matá-lo para não ter mais de olhar para ele. Para voltar a viver sem cuidar camisas. Vai ser muito trabalho, as valerá. Quem é, onde mora, o que faz, aonde vai, talvez o porquê da vigilância e toda essa coisa ridícula. Achei um absurdo de início. Essa grana toda para anotar as camisas de um sujeito? Moleza. Tão mole que derreto. Eu aqui: muita garrafa de isotônico, equipamento e a camisa hoje é verde suado sem detalhes. Qual a de ontem? Verde não era. A história continua. Poderia matar esse puto só porque pode ir embora sem levar nada. Cinco minutos de sol escaldante e se manda. Estou aqui faz litros de suor, tédio e raiva. Olho a tralha. Carregar tudo. Este já está morto. Dedicação exclusiva. Onde mora?"
Joe Notebook é metódico. Não é doente, mas o tamanho do queijo e da mortadela no sanduíche de pão redondo é exato. Uma moeda grande: um lado queijo, outro mortadela.
Matar é fácil. Muitos modos. Quantidade de oportunidades. O problema não é escapar impune da polícia, da lei. Crimes sem motivo, ainda que assassinatos, não têm solução. A menos que o autor seja estúpido ou seja um desprezado pelo sorte, um eleito pelo azar. Usualmente não acontece ao Joe. O queijo cobre exatamente a mortadela. Mas não sabe quem o contratou. Podem ser perigosos. Tudo tem de ser casual. Nada de enredo cinematográfico. Pensa rápido em atropelamento. Não serve. Teria de ser o motorista. Muita interferência do acaso. Fuga, carro, insuspeitas testemunhas, câmeras de vigilância e não há garantias que o sujeito morre. Bobagem. Qual a rotina do cara das mil camisas? Mulher? Filhos? Outro trabalho mais emocionante que andar todos os dias até o parque com uma camisa nova??
O insight é horroroso, um choque do cotovelo até o pulso. Bateu o braço na cadeira quando pensou que o cretino poderia não ser outra coisa que mais um elo numa cadeia da qual poderia nunca perceber o tamanho ou o objetivo. E se o cara fosse quase tão patético quanto ele? E se esativesse contratado para ir, dia após dia, semana após semana, mês após mês e entrar ano sempre indo ao parque com uma camisa diferente? Azar dele, do penúltimo, a história vai acabar.
Seguir bem feito, despercebido, é tarefa para dias. Primeiro até aquela esquina, dali, outro dia, mais um pedaço e assim até conhecer o fim. Um condomínio de alto luxo. Altas cercas, alta segurança. Tudo o que seria ruim que fosse. Um edifício seria fácil, uma casa isolada mais ainda. Ali tudo o que pode fazer é ir embora sem perguntar nada. Teria de ser no trajeto ou no parque. Talvez surgisse algo da rotina do cara. Contar os tempos. Estar no parque durante a hora e meia aprazada para a verificação de camisa era absolutamente necessário. O bosta podia não ir, Joe nunca.
A tentação de dar um fim rápido nem apareceu. Agora havia um objetivo, um tipo de serviço diferente. Eliminar o cara. Absorvente. A emoção da caça.
"A emoção é nenhuma, mas lá está ele. Hoje está verde como pedaços de grama que o calor e a estiagem ainda não secaram. Quantas camisas verdes esse animal terá? Animal, sim, animal! Não o conheço, não sei nome, não quero saber. Não gosto dele. Ninguém me faz sofrer assim desde o ginásio. Não é culpa dele? Claro que é, alguma fez para alguém ou eu não estaria condenado.
Bah! Não vou me enganar. Sem desculpas. Penso em matá-lo para não ter mais de olhar para ele. Para voltar a viver sem cuidar camisas. Vai ser muito trabalho, as valerá. Quem é, onde mora, o que faz, aonde vai, talvez o porquê da vigilância e toda essa coisa ridícula. Achei um absurdo de início. Essa grana toda para anotar as camisas de um sujeito? Moleza. Tão mole que derreto. Eu aqui: muita garrafa de isotônico, equipamento e a camisa hoje é verde suado sem detalhes. Qual a de ontem? Verde não era. A história continua. Poderia matar esse puto só porque pode ir embora sem levar nada. Cinco minutos de sol escaldante e se manda. Estou aqui faz litros de suor, tédio e raiva. Olho a tralha. Carregar tudo. Este já está morto. Dedicação exclusiva. Onde mora?"
Joe Notebook é metódico. Não é doente, mas o tamanho do queijo e da mortadela no sanduíche de pão redondo é exato. Uma moeda grande: um lado queijo, outro mortadela.
Matar é fácil. Muitos modos. Quantidade de oportunidades. O problema não é escapar impune da polícia, da lei. Crimes sem motivo, ainda que assassinatos, não têm solução. A menos que o autor seja estúpido ou seja um desprezado pelo sorte, um eleito pelo azar. Usualmente não acontece ao Joe. O queijo cobre exatamente a mortadela. Mas não sabe quem o contratou. Podem ser perigosos. Tudo tem de ser casual. Nada de enredo cinematográfico. Pensa rápido em atropelamento. Não serve. Teria de ser o motorista. Muita interferência do acaso. Fuga, carro, insuspeitas testemunhas, câmeras de vigilância e não há garantias que o sujeito morre. Bobagem. Qual a rotina do cara das mil camisas? Mulher? Filhos? Outro trabalho mais emocionante que andar todos os dias até o parque com uma camisa nova??
O insight é horroroso, um choque do cotovelo até o pulso. Bateu o braço na cadeira quando pensou que o cretino poderia não ser outra coisa que mais um elo numa cadeia da qual poderia nunca perceber o tamanho ou o objetivo. E se o cara fosse quase tão patético quanto ele? E se esativesse contratado para ir, dia após dia, semana após semana, mês após mês e entrar ano sempre indo ao parque com uma camisa diferente? Azar dele, do penúltimo, a história vai acabar.
Seguir bem feito, despercebido, é tarefa para dias. Primeiro até aquela esquina, dali, outro dia, mais um pedaço e assim até conhecer o fim. Um condomínio de alto luxo. Altas cercas, alta segurança. Tudo o que seria ruim que fosse. Um edifício seria fácil, uma casa isolada mais ainda. Ali tudo o que pode fazer é ir embora sem perguntar nada. Teria de ser no trajeto ou no parque. Talvez surgisse algo da rotina do cara. Contar os tempos. Estar no parque durante a hora e meia aprazada para a verificação de camisa era absolutamente necessário. O bosta podia não ir, Joe nunca.
A tentação de dar um fim rápido nem apareceu. Agora havia um objetivo, um tipo de serviço diferente. Eliminar o cara. Absorvente. A emoção da caça.
1 comment:
Aguardando os próximos capítulos....
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