Na verdade daquela tolice toda tinha interessado o papo sobre confiança. Garantira tolamente que mesmo sendo o que sua filha chamava de irresponsável inócuo poderia assumir um compromisso e cumpri-lo baseado exclusivamente no fato de ter prometido fazer.
Gostava de cozinhar, inventava pratos. Tinha nascido rico e nada fizera para mudar isso. Estudara o suficiente para dizer chega. Não preciso. Não quero. No tempo adequado perdera ambos os pais para o câncer. Viajara até aceitar que não gostava de lugares novos. Descobriu bem cedo. Dois casamentos obrigaram a longas viagens para ver coisas que no cinema eram mais bonitas, menos bichos nojentos, fedores e, principalmente, menos congelantes. Não morava mais onde nascera por conta da migração filial. Sempre residia na mesma cidade que a filha. Questões de praticidade. Não se viam muito. Era um gostar amigo, nada sufocante.
Num dos raros almoços cerimoniosos que promovia em atenção à filha e aos chatíssimos filhos e marido aconteceu o que chamava de tolice fundamental. Tinha caído numa esparrela. A filha trabalhava. Acreditava nessas bobagens de ser útil, fazer a vida por si mesma, quaraquaquá e tal. Nada dizia das oportunidades que tivera. Certo, ganhava bem. Poderia ter se feito por si mesma, mas não foi bem assim. Paizão, sabia não tocar no assunto. Era importante para ela. Para ele, só a vagabundagem era coisa natural. O avô dela e o bisavô, talvez o anterior também, tinham construído o que ele só gastava e achava muito bom que fosse assim, sem problemas de consciência ou mais besteiras.
O desafio exigia que fosse fiel a um compromisso sem sentido que, na opinião dele, não provava nada. Apenas que era teimoso como uma mula. A facilidade da coisa era enganosa. Até a volta da filha e sua chatíssima tropa de longa volta ao mundo da qual escapara por pouco, sepultando as chances de não cumprir o que no começo parecia piada, prometera ir pelo menos quatro dias por semana ao parque nunca repetindo consecutivamente a mesma camisa.
Enfim, estava no fim. Mais umas duas semanas e estaria tudo terminado. As camisas não precisavam ser todas diferentes, mas ele fez assim. Teria enorme prazer em dar as trezentas e tantas camisa diferentes para o genro imbecil. Trezentos dc qualquer coisa são grande volume. Trezentas coisas inúteis são um monumento. Guardar trezentas coisas sem uso visível é castigo que haveria de deixar por herança ou não haveria herança. Um troco simples pelo trabalho de encomendar, já pela terceira vez, cento e cinquenta camisas diferentes e ir passear no parque com elas. Uma de cada vez, nunca repetindo.
Que poderia haver de mais inócuo e sem conseqüências? Já desejara acabar com aquilo inúmeras vezes, mas nem sempre choveu e agora já era parte da rotina. O porteiro do condomínio brincava: - Camisa nova, Doutor? - Coisa da filha, sempre respondia ao passar o portão a pé. O parque era perto.
Gostava de cozinhar, inventava pratos. Tinha nascido rico e nada fizera para mudar isso. Estudara o suficiente para dizer chega. Não preciso. Não quero. No tempo adequado perdera ambos os pais para o câncer. Viajara até aceitar que não gostava de lugares novos. Descobriu bem cedo. Dois casamentos obrigaram a longas viagens para ver coisas que no cinema eram mais bonitas, menos bichos nojentos, fedores e, principalmente, menos congelantes. Não morava mais onde nascera por conta da migração filial. Sempre residia na mesma cidade que a filha. Questões de praticidade. Não se viam muito. Era um gostar amigo, nada sufocante.
Num dos raros almoços cerimoniosos que promovia em atenção à filha e aos chatíssimos filhos e marido aconteceu o que chamava de tolice fundamental. Tinha caído numa esparrela. A filha trabalhava. Acreditava nessas bobagens de ser útil, fazer a vida por si mesma, quaraquaquá e tal. Nada dizia das oportunidades que tivera. Certo, ganhava bem. Poderia ter se feito por si mesma, mas não foi bem assim. Paizão, sabia não tocar no assunto. Era importante para ela. Para ele, só a vagabundagem era coisa natural. O avô dela e o bisavô, talvez o anterior também, tinham construído o que ele só gastava e achava muito bom que fosse assim, sem problemas de consciência ou mais besteiras.
O desafio exigia que fosse fiel a um compromisso sem sentido que, na opinião dele, não provava nada. Apenas que era teimoso como uma mula. A facilidade da coisa era enganosa. Até a volta da filha e sua chatíssima tropa de longa volta ao mundo da qual escapara por pouco, sepultando as chances de não cumprir o que no começo parecia piada, prometera ir pelo menos quatro dias por semana ao parque nunca repetindo consecutivamente a mesma camisa.
Enfim, estava no fim. Mais umas duas semanas e estaria tudo terminado. As camisas não precisavam ser todas diferentes, mas ele fez assim. Teria enorme prazer em dar as trezentas e tantas camisa diferentes para o genro imbecil. Trezentos dc qualquer coisa são grande volume. Trezentas coisas inúteis são um monumento. Guardar trezentas coisas sem uso visível é castigo que haveria de deixar por herança ou não haveria herança. Um troco simples pelo trabalho de encomendar, já pela terceira vez, cento e cinquenta camisas diferentes e ir passear no parque com elas. Uma de cada vez, nunca repetindo.
Que poderia haver de mais inócuo e sem conseqüências? Já desejara acabar com aquilo inúmeras vezes, mas nem sempre choveu e agora já era parte da rotina. O porteiro do condomínio brincava: - Camisa nova, Doutor? - Coisa da filha, sempre respondia ao passar o portão a pé. O parque era perto.
Ia até lá entre tal e tal hora ficava um pouco, olhava o lago e os outros estranhos fregueses diários do parque. Observava os cães e as raças dos donos. Pela graça da coisa Havia também um fotógrafo com telescópio, talvez estudioso de pássaros ou repórter investigativo (sempre lá, chuva, frio ou canícula). Cumpria o ritual da camisa e rumava para o clube, os amigos e o apelido ganho por merecimento: Camisa Nova. Depois, a vez de Tereza Seios Enormes.
1 comment:
Muito legal!
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